sábado, 12 de agosto de 2017

O grande livro do Universo

Galileu Galilei (1564-1642)
A filosofia está escrita nesse imenso livro que continuamente se acha aberto diante de nossos olhos (falo do universo), mas não se pode entender se antes não se aprende a compreender a língua, e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele vem escrito em linguagem matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível entender suas palavras; sem eles, fica-se vagando em um labirinto escuro. 
(Saggiatore, 6)

Galileu, O Ensaiador, 1623


Olhando o grande livro da natureza, como diria Carl Sagan ou mais recente, Neil deGrasse Tyson, o céu é infindável, o infinito se espraia por todos os lados, o infinito é tudo. As maravilhas estão além do alcance dos olhos atentos, que mesmo sem nenhum instrumento ótico, tem no céu um misterioso manto de sabedoria, esperando para ser desvendado.

Neil deGrasse Tyson (1958 - )
Isso não é novidade. A história da Física e, por conseguinte, a história da Ciência nos contam invariavelmente que a linha evolutiva do pensamento racional (não a religião) começa com o homem primitivo aprendendo a sobreviver com o domínio do fogo e aperfeiçoando o conhecimento.

L'atmosphere (Camille Flammarion)
As coisas do mundo oriental, da Mesopotâmia pra lá, sabemos em fragmentos. O que se passou nos recônditos da Rússia, da China, da Índia e do saber milenar, os registros são escassos. O pensamento próspero da região entre o Tigre e o Eufrates (atual Iraque) sobreviveu em tabuletas de argila. A Babilônia e o Egito parecem histórias fantásticas. Coisas de 10, 15 mil anos atrás têm registros imprecisos.


Nada disso é novidade, os livros estão cheios desses detalhes. E a História é unânime em afirmar que é aos gregos que os ocidentais devem louvor. Que o pensamento ocidental deve louvor. Mesmo que os romanos não concordem com a premissa. Aliás, apenas quando a Europa medieval passou a conhecer os gregos foi que as coisas começaram a sair de longos anos de obscurantismo. Uma salva de palmas para a civilização islâmica que, lá por volta de 800 D.C., redescobriu os gregos e os reintroduziu na Europa, sem as estátuas peladas, claro.

A ciência pura na Grécia e região foi estupenda no século cinco antes do nascimento de Jesus Cristo. A sequência de feitos, na contagem regressiva até o ano zero da Era Cristã, contêm fatos e personagens que sobreviveram ao tempo. E moldaram o pensamento ocidental.


De acordo com a linha do tempo, Tales de Mileto (624-546 AC), os jônicos e os “sete sábios da Grécia” (Pitágoras, Empédocles, Aristóteles, Platão e outros mais), quer tenham acrescentado ou revisto a obra do filósofo anterior, praticamente disseminaram as bases sobre as quais desenvolveu-se e assentou-se o saber dominante da Era Contemporânea.

Demócrito (460-370 AC), o Gozador
Demócrito levou a fama por conceituar o átomo, mas antes e depois outros também ficaram conhecidos por tentar explicar o mundo não exatamente pelo viés criacionista, isto é, por uma vontade divina. Muito embora, muito embora, há quem diga que Platão atrasou a ciência por mergulhar a razão em devaneios idealistas.


Por que tudo isso? Apenas para servir como pano de fundo do episódio desta postagem, que trata de coisa prática, o desafio do ensino da Física à luz de tudo que nos envolve, incluindo a célebre dificuldade das instituições de ensino em atingir seus objetivos, pois – eis a Educação que temos – na retranca jogam os baixos salários e a falta de estrutura.

No time dos professores... bem, os profissionais da educação sabem muito bem o que significa atuar em campo esburacado e mal iluminado. Quanto aos estudantes, que desalento, parece que repetimos ladainhas de 60, 70 anos (ou mais) atrás. Que o digam aquelas avaliações internacionais que enquadram o ensino brasileiro na categoria de indigente. Com suas ilhas de exceções, sim, sim.


Daí chegamos ao final deste longo nariz de cera. Em Brasília, professores de Física se reuniram para discutir a relação e tratar dos temos relevantes à categoria. Normal, todo mundo faz isso. A Física é a tal ciência fundamental, base para todas as outras. É com a Física que explicamos a realidade, o jeito que o Universo funciona. Com ela desvendamos galáxias e os confins do universo, e também as partículas subatômicas. Vejam a importância dos professores de Física.

O encontro em Brasília também foi oportunidade para homenagear um dos grandes nomes da Educação neste país, que teima ter índices pífios de alfabetização e ensino aprimorado.


Não vamos falar mal do Brasil (é ruim falar mal do Brasil), mas vamos falar do Ph.D. pela Cornell University (EUA) Marco Antonio Moreira, professor Emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em ensino de Ciências, Teorias de Aprendizagem e áreas correlatas. Professor Moreira foi homenageado no encontro dos professores de Física, realizado no Centro Internacional de Física da Matéria Condensada (CIFMC), campus da Universidade de Brasília (UnB).


A homenagem parece mais do que justa. Ele é considerado o criador do mestrado profissional em Ensino de Física e agora batalha pela criação e regulamentação do doutorado em Ensino de Física. Nada como ter a academia para preparar e polir nossas melhores mentes. Só que nem tudo é lindo e maravilhoso.

Professor Marco Antonio Moreira
Na palestra inaugural da VI Escola de Física Roberto A. Salmeron (EFRAS) e I International School on Physics Teaching (ISPT), o professor Moreira dissecou o significado de ser professor de Física à luz da Educação que escolhemos ter (ou a que nos é enfiada goela abaixo). Muito interessante, aos olhos leigos deste blog, perceber que todas a maravilhas da história da Física e da Ciência (em outras palavras, a nossa história), pouco inspiram ou saciam a sede de saber, como um dia fizeram com os tais gênios da humanidade.


Levas e levas de estudantes, gerações, não é de hoje, repetem o aprendizado prático, mecanicista; estudam para as provas, para as avaliações, para os diplomas, para os concursos. E haja esforço mental para decorar as informações. “A aprendizagem mecânica tira a liberdade do educando; não forma, domestica”, critica o professor Marco Antonio Moreira, sabedor de que os problemas começam na infância e desancam no mestrado: “Os mestrandos têm dificuldades com a escrita, com saber expressar seus pensamentos em uma tese”.

Richard Feynman (1918-1988)
Mas, espera um instante. Outro dia comentamos aqui a respeito do físico quântico norte-americano Richard Feynman (1918-1988), Nobel de Física em 1965, que passou pelo Brasil no início dos anos 1950. Feynman trocou a Princeton e a Cornell University, as lembranças de Los Alamos, e de sua falecida primeira esposa Arline Greenbaum, para viver uma aventura no Rio de Janeiro.

Aventura, claro, tinha uma mulher envolvida na história e também um certo apreço por tocar frigideira em um bloco de Carnaval, de Copacabana. Fatos deliciosamente relatados no livro Surely you’re joking, Mr. Feynman.


Mas, no capítulo do livro em que descreve a passagem pelo Brasil, Feynman registra, entre o constrangido e o embasbacado, que seus alunos na Universidade do Rio de Janeiro (atual UFRJ) eram uns cdfs, reis da decoreba. O que lhe veio à mente foi um instantâneo dos caminhos da Educação no Brasil: um sistema que se modela por baixo e por baixo permanece. Estamos falando de 1952. Lá se vão sessenta e tantos anos, com a ressalva de que no livro, Feynman nada fala sobre o salário dos professores daquela época.


Voltando ao professor Marco Moreira, no todo desse sistema, a parte que cabe aos professores é condição primordial. Aqui, parte do discurso de agradecimento pela homenagem recebida durante a VI Escola de Física Roberto A. Salmeron (EFRAS) e I International School on Physics Teaching (ISPT):

Infelizmente, no Brasil os professores têm um salário indigno. Estamos valorizando os professores em termos de conhecimentos, de experiências didáticas, de como ensinar melhor a Física. Creio que muitos vão se interessar por um doutorado profissional. Isso terá contribuição para o doutorado profissional em ensino. Mas espero que se resolva a questão dos salários indignos e das condições de trabalho. É uma vergonha, pois o governo fala que a educação é a coisa mais importante no país; todos falam, todos os políticos, todos os governos, enquanto os professores são tratados de maneira indigna. Por enquanto, nossa luta segue com a valorização do professor, no sentido de oferecer mestrado profissional e doutorado profissional. Temos tido resistência da academia, o Brasil... a nossa cultura é altamente acadêmica. Tanto é que sempre se distingue entre a produção intelectual e a produção técnica, como se esta não tivesse nada de intelecto. Isso é um absurdo. Um paper publicado, em uma revista que ninguém vai ler, vale muito mais do que um livro que a pessoa passou quatro anos escrevendo. Essas coisas estão mudando, mas pouco a pouco.

O Blog do Hektor conversou com o professor Marco Antonio Moreira.

Blog do Hektor – Professor, vimos na sua fala uma certa angústia dos educadores, no sentido de se fazerem compreendidos em suas muitas frentes de batalha. Não falamos somente das coisas ditas dentro das salas de aula, mas que sirvam para a vida prática, o desenvolvimento humano dos alunos. Enfim, o sentido filosófico da Educação. Por quê ainda estamos falando hoje, Século XXI, de coisas que eram ouvidas tempos atrás?

Marco Antonio Moreira – Não acho que sejam coisas de tempos atrás. Acho que estamos hoje falando com mais força. Esse treinamento não era tão forte como é hoje. Atualmente, toda a educação é voltada para o treinamento para a testagem. Sejam os testes nacionais, sejam internacionais. Não há a Ciência para a cidadania. É um direito que as pessoas têm de aprender ciência. Nosso mundo tem Física, tem Biologia, tem Química, então, tem que aprender isso com significado. Como nossa cultura e nosso sistema estão voltados para a testagem, os alunos só se preparam para as respostas corretas. Dessas respostas corretas, não sobra nada. Além disso, o fato de o aluno dar a resposta correta, não significa dizer que ele compreendeu, que ele vá usar aquilo depois.

BH – Isso não é só no Brasil.

MAM – Não. Infelizmente é a pressão internacional. Não importa se é um país capitalista, socialista ou comunista. Todo mundo está nessa do treinamento para a testagem. Tanto é que existe um termo internacional, já consagrado: o teaching for testing.

BH – O Richard Feynman reclamava de algo assim, quando esteve lecionando no Brasil, no início dos anos 1950. São mais de 60 anos de lamúrias e queixas contra a educação decoreba.

MAM – É quase que um crime educacional a criança passar 12 anos na escola, decorando coisas. Falaram aqui de coisas interessantes, como dar um outro sentido às feiras de ciências, mas prevalece o esquema de se preparar para a prova, o que significa uma aprendizagem puramente mecânica. Tem que saber a resposta, não importando se o aluno entendeu realmente o seu sentido. O que interessa é saber a reposta correta.

BH – Quando uma pessoa se debruça sobre a história da Ciência, a história da Física, ela percebe que, longe de toda a rede de cálculos necessária para o entendimento dos problemas, o que fica é o sentido filosófico de tudo. As pessoas não se dão conta de que a história da Física e da Ciência é a própria história da humanidade? Por quê se deixam solapar por preconceitos e visões distorcidas?

MAM – Acho que essa parte – a história da Física e da Ciência – deveria ser incorporada não só no sentido de datas e historiografia. Uma grande revolução na Física foi a quantização da energia. A mudança da Física clássica para a Física quântica. Seria interessante ver como foi difícil chegar a essa ideia de que a energia é quantizada. Como se tentava mostrar que a energia não é contínua. A Relatividade também tem uma história, até que a gente chegasse a ideia de que o tempo e o espaço não são absolutos, são relativos. O aluno aprende quantização, mas deve sentir dificuldade em imaginar o que vem a ser isso, o que vem a ser uma partícula elementar. Temos uma cultura que indica que (a partícula elementar) é uma bolinha. É preciso um pouco de história, para a gente ver quando foi que a gente abandonou essa ideia da bolinha. É importante a história, mas com o viés de como essas disciplinas evoluíram historicamente. Não só ficar endeusando nomes e sabendo as datas dos fatos.

BH – Para os leigos é um tormento entender a Física newtoniana. A Física quântica, então, nem se fala. A Física do muito grande versus a Física do muito pequeno.

MAM – Tem que ver como o Newton e o Einstein chegaram a essas ideias. Esquece aquela coisa do insight, o cara teve um momento genial.

BH – Uma maçã que caiu na cabeça do Newton.

MAM – Sim.

BH – O senhor crê que a religião é um fator impeditivo desse livre pensamento?

MAM – Não. Respeito, mas se estou ensinando Física, quero que meus alunos entendam qual a é visão da Física. Se eles vêm com a visão da Religião, essa é outra visão. O ser humano tem essa condição de olhar o Universo com distintas visões. Não quero ensinar Física dizendo aos alunos que eles têm que abandonar a Religião. Religião é outra maneira de ver a humanidade. Estou aqui trabalhando com a maneira científica de ver a humanidade. Eventualmente podem haver contradições, mas nos cabe ver como vamos fazer para compatibilizar essas coisas. Não concordo com a ideia, que acontece nos Estados Unidos, por exemplo, que proíbem o darwinismo, porque ensinam o criacionismo. Qual é uma visão e qual é a outra?

BH – Essa briga darwinismo versus criacionismo ecoa no Brasil?

MAM – Não sei dizer.

BH – O senhor é religioso?

MAM – Não. Respeito profundamente as religiões. Defendo a ideia de que há muitas visões de mundo. Respeito quem tem visão diferente da minha.

Professor Marco A. Moreira


sexta-feira, 30 de junho de 2017

João Bosco & Hamilton de Holanda - Eu Vou Pro Samba



João Bosco e Hamilton de Holanda mandando ver Linha de Passe. Difícil ficar indiferente ao talento, à sintonia e à sincronia da dupla. A canção de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, por si só, já é algo irresistível, desde que apareceu pela primeira vez no disco Linha de Passe, de 1979.


"Toca de tatu, lingüiça e paio e boi zebu/ Rabada com angu, rabo-de-saia/ Naco de peru, lombo de porco com tutu/ E bolo de fubá, barriga d'água/ Há um diz que tem e no balaio tem também/ Um som bordão bordando o som, dedão, violação".  Esses versos de canto nagô, iorubá e o escambau, parecem uma parlenda, um legítimo trava-língua brasileiro, de fazer a alegria dos fonoaudiólogos que ganham a vida nessas terras.


Mas observem que aparentemente alguém publicou o vídeo em 2008, o que demonstra que não é de hoje que os dois se encontram nos bailes da vida. Pois agora, com o bandolinista em vasta cabeleira, João Bosco e Hamilton de Holanda se encontram em Brasília, para série de shows no teatro da Caixa. Os ingressos do espetáculo intitulado "Eu Vou Pro Samba" estão esgotados, como de costume naquele espaço, mas fica aqui o registro deste raro encontro de talentos, aqui nesta capital.

Os dois afirmando entre cordas que a cultura brasileira é algo sólido, superior, o oposto desses tempos de má brasilidade que nos sufoca, subjuga e humilha. Quanto ao título, um tiro ao alvo: tá feliz ou tá triste? Corre pro samba. Tudo se resolve.


João Bosco, um dos mais queridos e respeitados cantores/compositores da MPB, e Hamilton de Holanda , o reinventor do bandolim, são capa da revista Roteiro Brasilia, edição de junho de 2017. O autor deste blog assina matéria sobre o encontro, sendo destaque a mini-entrevista feita com os músicos. Em Brasília ou qualquer outra latitude, João Bosco e Hamilton de Holanda, juntos ou separados, provas pétreas de que a música é nossa voz mais eloquente.


sábado, 3 de junho de 2017

Arnaldo's Jukebox em Brasília

Louco é quem me diz e não é feliz...



Esqueça, aliás, renove suas convicções a respeito da música. Ou pelo menos de como ela normalmente deve ser mostrada em público, em uma sala de espetáculos, por exemplo.


Com o espírito desarmado e a alma despojada de egoísmo e interesses encare a apresentação do ex-Mutantes Arnaldo Baptista, em raríssima e desde já histórica aparição solo, no teatro da Caixa, em Brasília, dias 2, 3 e 4 de junho de 2017.

É a experiência garantida de que humanos somos e de quão capazes quando o amor e a dignidade norteiam nossas existências. Não importa que a gente viva 5, 20, 70 ou 100 anos. É sempre tempo muito pouco para ser feliz; a eternidade em um momento.

Arnaldo no Teatro da Caixa em Brasília (Foto: Hoana Gonçalves / Facebook)

O que se viu e ouviu na primeira noite da temporada no teatro da Caixa foge à compreensão, o senso comum, de como um artista deve se portar em público. No show Sarau o Benedito?, Arnaldo Baptista instiga a fruição musical, a inteligência e os sentimentos da plateia, de modo que só os assim chamados gênios conseguem fazer.

Arnaldo: Sarau o Benedito?

No palco, apenas ao piano e tendo ao fundo projeções de desenhos de sua autoria, Arnaldo encarna uma personalíssima jukebox, na qual rodam suas canções e de autores alheios, significativamente escolhidos.

Arnaldo Dias Baptista e as canções transfiguradas

O canto engole frases, a voz às vezes fraqueja, os semitons saltam em relevo, as notas parecem trôpegas; o piano, afinal, responde como extensão dos comandos do executante.

Arnaldo é emoção à flor da pele, um menino feliz brincando com a música e com a plateia que o reverencia a todo momento. Suas músicas parecem transfiguradas, assim como suas favoritas dos Mutantes, Bob Dylan, Beatles, Peter, Paul & Mary, The Rolling Stones, Harry Belafonte, Chris Montez, Burt Bacharach, Elton John, Yves Montand. Pouco importa, tudo importa.


Felicidade é a pedra de toque, a chave de tudo. Só de ver essa pessoa assim ganhamos o dia. Uma noite de lágrimas de felicidade.

Eu juro que é melhor/ não ser o normal...


Em tempo: enquanto Arnaldo desconcertava em Brasília, São Paulo via no mesmo dia a premiére de Antinomies I, obra "perdida" de Rogério Duprat, o maestro da Tropicália. Nas projeções em vídeos, no auditório do Ibirapuera, vários desenhos de Arnaldo Baptista.



Agora, felicidade transbordante só mesmo levando para casa a nova edição em vinil 180 gramas do espetacular Loki?, masterpiece de Arnaldo lançada em 1974. Crianças, esse é um dos maiores discos de rock'n'roll de todos os tempos. Detalhe: sem guitarras! 


terça-feira, 23 de maio de 2017

Kraftwerk - Brasília 1967


Don't know who had the idea to mix up Kraftwerk's Expo 2000 with this old film of Brasília. It sounds and it looks great! Those were the first years of occupation of this land. A wonderful time in a wonderful city.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pearls Before Swine e a conexão amazônica

Não lanceis aos cães as coisas santas, 
não atireis aos porcos as vossas pérolas, 
para que não as calquem com os seus pés, e, 
voltando-se contra vós, vos despedacem.

Matheus, 7-6

Give not that which is Holy unto the dogs; 
neither cast ye your PEARLS BEFORE SWINE, 
lest they trample them under their feet, 
and turn ye on, and rend ye.

Matthew, 7-6



A história de hoje aparece no meio das celebrações (se é que há uma) de 50 anos do lançamento do disco One Nation Underground, maravilhosa obra psicodélica da banda norte-americana Pearls Before Swine.

The Beatles - Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band
Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn

The Moody Blues - Days of Future Passed

The Jimi Hendrix Experince - Are You Experienced

The Doors - First Album

Isso, não são apenas os clássicos Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles), e The Piper At The Gates of Dawn (Pink Floyd) que viraram cinquentenários. Neste 2017, completam 50 anos os álbuns Days of Future Passed (The Moody Blues), Are You Experienced (The Jimi Hendrix Experience), e o primeiro The Doors, todos tidos como obras que definiram os anos 1960, e importantes não apenas no âmbito do rock’n’roll, mas no contexto da cultura anglo-saxônica que se espalhou pelo mundo, sendo absorvida e reprocessada das mais diferentes formas, pelas mais diferentes culturas.



Tom Rapp, com o violão, nos anos 1960

Tom Rapp, atualmente
One Nation Underground é um disco obscuro, de uma banda mais obscura ainda, liderada por um cara não menos misterioso, chamado Tom Rapp, nascido em Bottineau (North Dakota), e hoje na casa dos 70 anos.



The Garden of Earthly Delights (Hyeronimus Bosch)

O álbum tem suas qualidades e é um deleite para os ouvintes abertos a uma aventura psicodélica. A capa é um detalhe da estranhíssima pintura O Jardim das Delícias Terrenas, de Hyeronimus Bosch (1450-1516), o mais psicodélico dos grandes mestres da pintura. As canções são estranhas, as letras, enigmáticas; o clima, onírico; com instrumentos que jamais você ouvirá por aí (swine horn, clavioline, sarangi); a voz única de Tom Rapp (anquiloglossia? Língua presa?), muitos detalhes que, combinados, fazem da experiência aural uma imersão em um mundo musical, depois identificado (ou classificado) como folk psicodélico.

Balaklava (1968)

These Things Too (1969)

The Use of Ashes (1970)

Tom Rapp - Journal of The Plague Year (1999)

Quanto a Tom Rapp, sua vida segue razoavelmente bem documentada na web: lançou grandes discos sob a alcunha Pearls Before Swine, largou a carreira musical, formando-se posteriormente em Direito, e lançou o último trabalho como artista solo, em 1999, com uma obra intitulada A Journal of The Plague Year, o qual teve a presença da baixista Naomi Yang e do baterista Damon Krukowski, ambos ex-Galaxy 500 e mais conhecidos como a dupla Damon & Naomi.

Advogado e professor Marco Alexandre Rosário (2017)
A lembrança de que o primeiro Pearls Before Swine faz 50 anos partiu de um conhecido, fã inveterado da banda, atualmente advogado e professor de Direito Penal, chamado Marco Alexandre Rosário.

Adepto da filosofia DIY (Do It Yourself), Marco Alexandre não se conteve em ouvir milhares de vezes o One Nation Underground, a partir dos anos 1980, quando conheceu a obra. Influenciado por toda uma vivência habituada à literatura dos mestres e a ouvir os clássicos, o jazz e o rock, esse cidadão passou a produzir poemas, pinturas e música com o que tinha à mão.


Fundou uma editora (Ogmios), lançou livros e discos, tudo de maneira artesanal. E o mais louco de tudo: de alguma maneira conseguiu atrair a atenção do Tom Rapp, o inventor do Pearls Before Swine.


Em 2001, depois de uma troca de correspondências, Tom Rapp enviou para Marco Alexandre uma fita cassete com a gravação que havia feito para o poema “Lírio”, escrito pelo brasileiro.

Jardim,
eu
ilumino
Com
meu
brilho
O teu
lamento
Eu me chamo
Lírio,
lírio,
lírio,
lírio.


Garden,
I
light up,
With
My
Shine
Your
lament.
My name is
Lily,
Lily,
Lily,
Lily.

Terrastock 5 (2002)

Um dos caras mais misteriosos do rock norte-americano tem esse coração generoso: não pode recitar o poema, esse era o combinado, quando de sua participação no festival Terrastock 5, em Boston (Massachssetts), ao invés disso, mandou a gravação, que ficou conhecida como Lily (Marco’s Song).

O Blog do Hektor conversou com Marco Alexandre e prefere que o próprio diga em suas palavras como tudo se passou.

Blog do Hektor – Primeiro, obrigado por lembrar que faz 50 anos que Tom Rapp entrou em estúdio para gravar o clássico One Nation Underground. O que há de tão especial na música de Tom Rapp/ Pearls Before Swine?

Marco Alexandre Rosário – Em primeiro lugar, acredito que foi a época em que o álbum foi gravado. O ano de 1967 foi um ano mágico, em que a música dita popular alcançou níveis jamais imaginados e jamais igualados. Era a época no Movimento Hippie, do Movimento Underground, da Contracultura, do Psicodelismo. No caso específico do One Nation Underground, o clima do álbum é um tanto medieval, experimental, e muito bonito. Os anos de 1966 e 1967, a começar pelo álbum Rubber Soul, dos Beatles (lançado na Inglaterra em dezembro de 1965), foram anos inigualáveis na música popular. Também é preciso lembrar a participação dos outros membros do grupo no álbum, como a belíssima parceria de Lane Lederer e Roger Crissinger na canção The Surrealist Waltz. Ou na parceria Tom Rapp/ Roger Crissinger, na canção Ballad To An Amber Lady. Havia também a participação de Wayne Harley, o outro membro do grupo. Também cito as canções Another Time e Morning Song, todas de Rapp. One Nation Underground causou alvoroço nas comunidades hippies de San Francisco, quando foi lançado, porque os cabeludos achavam que era um projeto secreto de Bob Dylan com os Beatles. Hahaha.  Estavam chapados de LSD.

BH – Sei que o seu interesse por Tom Rapp/ Pearls Before Swine tem uns 30 anos, quando nos conhecemos em Belém (Pará).

MAR – Exato. Foi o jornalista Heitor Menezes que me mostrou o álbum, em 1983, o álbum que mudou minha vida para sempre. O álbum era da época do lançamento, em 1967. Fiquei completamente extasiado por aquela música maravilhosa, experimental e bela.


BH – Depois da carta endereçada ao grupo, que acabou não sendo respondida, você continuou interessado em saber mais sobre Tom Rapp/ Pearls Before Swine? Isto é, conseguiu ouvir os discos subsequentes? Balaklava (1968), These Things Too (1969) e The Use of Ashes (1970), por exemplo.

Marco Alexandre Rosário, músico

MAR – Eu conheci o PBS em 1983. Em 1984, inspirado no grupo e na gravadora ESP-DISK, comecei a criar um projeto artístico que ficaria conhecido como Editora Ogmios (Seaculum Obscurum) / Gravadora Arte Degenerada. Quando fiz o primeiro livro-música (um livro artesanal com uma fita cassete, em março de 1986), resolvi entrar em contato com Tom Rapp. Havia um endereço na contracapa do álbum One Nation Underground, que era o endereço da gravadora ESP-DISK em Nova Iorque. Então, enviei, provavelmente em junho de 1986, uma carta para Tom Rapp, para o endereço que estava no álbum, em Nova Iorque. Obviamente, a carta foi até Nova Iorque e voltou para Belém do Pará, porque eu a enviei 19 anos depois do lançamento do álbum. Não havia ninguém mais morando lá. Posteriormente, já na década de 1990, conheci o segundo álbum, Balaklava, de 1968, através do CD que um amigo meu, Douglas Dias, havia comprado. Já no século XXI conheci os outros álbuns. O próprio Tom Rapp me deu de presente um CD do seu último álbum solo, de 1999, A Journal Of The Plague Year, para o qual o jornal americano The New York Times fez uma imensa reportagem como título “Músico, Advogado e Músico Outra Vez”.

BH – Como e quando você contatou Tom Rapp? Mandou um email? Do que tratava a correspondência entre vocês?

MAR – Falei com Tom Rapp pela primeira vez em 2001. Era a primeira vez que eu tinha contato com a Internet. Criaram um e-mail para mim. Comecei a mexer na Internet, buscando informações sobre o Pearls Before Swine. Vi um site imenso e, de repente, apareceu um link que dizia para enviar uma mensagem para Tom Rapp, por e-mail. Enviei a mensagem em português e ele respondeu em inglês, me chamando de Mr. Rosário. Foi o primeiro e-mail que eu enviei na minha vida. Eu falei na mensagem por e-mail as mesmas coisas que havia falado na carta de 1986. Depois repeti tudo em inglês por e-mail, já que ele só fala em inglês.

BH – Alguma vez ele manifestou interesse em vir ao Brasil?

MAR – Sim, mas ele disse que no momento não poderia vir. Isso foi em 2001, logo que entrei em contato com ele. Agora, dificilmente ele viria.

BH – E como ele veio a pôr música e gravou um poema que você escreveu?


MAR – Depois do primeiro contato, ficamos bastante próximos. Então, ele me disse que iria fazer uma apresentação no Terrastock, um festival de música folk, ambientalista e tudo mais, em Boston. Típico da esquerda americana. Então, eu pedi a ele que ele recitasse um poema de minha autoria no Festival. Ele disse que sim, e eu enviei a ele o poema “Lírio”, que eu havia escrito em 1985 para o livro “As Flores”, traduzido em inglês por um programa de computador. Um tempo depois, quando ele voltou do Festival, ele me disse que não pôde recitar o poema por motivo de horário e pela desorganização do Festival. Então, ele disse que iria fazer melhor, que iria fazer uma música para o meu poema. Assim, em novembro de 2002, ele me enviou uma fita cassete com a música Lily/Marco’s Song (Lírio/Canção do Marco), em que ele cantava e tocava gaita, juntamente com a apresentação em Boston. Posteriormente, quando eu já morava em Santarém (Pará), acrescentei um piano à gravação, dando à música o título de Lily (Overture) e a coloquei no livro-música Winona e as Cadeiras de Rodas, publicando isso no site da Editora Ogmios, em 2005. Em 2016 fiz um vídeo da música e o coloquei na minha conta no YouTube. Mas, havia um outro projeto, envolvendo Tom Rapp e a cantora americana Meredith Monk. Eu propus a eles que fizéssemos um grande livro de poesia, denominado Letters To Americas (Cartas às Américas). Eles toparam fazer o projeto, mas eu acabei ficando sem tempo para iniciar o trabalho. Seria um longo poema com trechos em espanhol, inglês, português (as três principais línguas das Américas) e idiomas indígenas e dialetos da população negra nas Américas. Infelizmente, não consegui realizar tal trabalho, mas eles ficaram muito interessados.

BH – Ainda tem contato com ele?

MAR – Sim, mas no dia do aniversário dele, quando Tom Rapp completou 70 anos de idade, agora em março de 2017, ele não me enviou resposta. Enviei e-mail para ele agora em maio, por ocasião dos 50 anos do One Nation Underground, mas até agora ele não respondeu. Em 15 anos de amizade foi a primeira vez que isso aconteceu. Talvez ele esteja com algum problema.

BH – Tal qual Tom Rapp, você tem formação em Direito. Hoje mais do que nunca o mundo precisa de defensores do direito. Acredita que a evolução social, isto é, a paz social só é possível judicializando a vida? Ou seja: qualquer coisa, acione a Justiça. E pague um advogado.

MAR – É verdade, sou advogado, como Tom Rapp, e professor de Direito Processual Penal e Direito Penal, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), em Marabá (PA). Tom Rapp abandonou a música em 1976, voltando a estudar e se formando em Advocacia, nos Estados Unidos. O Direito existe para orientar a vida em sociedade. Assim, torna-se necessária a atuação do Direito em qualquer sociedade. Mas o Direito não é um fim em si mesmo. O objetivo maior é a felicidade e o progresso do ser humano a quem o Direito visa proteger e dar garantias sociais, econômicas e culturais.

BH – Sei do seu interesse pelo rock e a cultura dita alternativa. De que maneira esse tipo de coisa influencia sua vida, seu trabalho?

MAR – Eu parei de fazer música, poesia e pintura em 2008. Mas a Editora Ogmios continuou existindo, através dos sites (além do site acima mencionado, temos o www.seaculumobscurum.net, em português), do Youtube, do Facebook e do blog. Em 2015 fiz duas apresentações na UNIFESSPA em comemoração aos 30 anos da Editora Ogmios (1984-2014). Sei que a Editora Ogmios influenciou garotos e garotas mundo afora por causa dos sites. Acho isso bom, mas não existe mais uma coisa chamada movimento underground, contracultura, psicodelismo, tendo em vista que a época é outra. Mas, acredito que novas ideias parecidas estejam a caminho, porque há muitos jovens que desejam fazer coisas novas.

Submarino construído por narcotraficantes, apreendido em 2015
BH – Sei que você fez de sua dissertação de Mestrado um estudo sobre o tráfico de drogas na região amazônica. E sei também que neste você dedicou um capítulo inteiro ao pensamento de que, para além dos efeitos danosos e violentos que o tráfico traz ao mundo, as drogas, principalmente as psicotrópicas, estão intrinsecamente ligadas à civilização. O que é fato, o que é mito e o que é hipocrisia nessa história?

MAR – O Homem sempre usou drogas e sempre as usará. Porque as drogas causam esta sensação diferenciada da realidade cotidiana. Há drogas perigosas, como o álcool, e drogas com um grau menor de destruição, como a maconha (cientificamente comprovado). Mas, todas fazem mal à saúde. O que sempre achei é que há muita gente falando tolices, tanto contra como a favor, e que deveriam procurar pesquisar sobre o assunto para não causar preconceitos e nem incentivar o uso e o tráfico de drogas. Essa é uma questão muito séria e grave da civilização atual. Com relação às artes, principalmente em relação à música, sempre houve a influências das drogas nesse meio, seja o LSD do hippie dos anos 60, seja a cervejinha do sertanejo ou do pagodeiro atualmente.

BH – Sendo assim, ergamos uma taça de vinho a Tom Rapp, e a você, amigo, por bem representar o espírito da coisa.

MAR – Pode acrescentar que é uma honra ter tido um poema escrito por mim e musicado pelo Tom Rapp, já que ele fez o mesmo com poemas de escritores famosos, como é o caso de poeta irlandês William Butler Yeats (poema Silver Apples, lançado no álbum solo de 1999, A Journal Of The Plague Year). Além das canções Translucent Carriages, que parece que é um poema de Heródoto, o grego (creditada a Herodotus/Harley/Rapp, no álbum Balaklava), e Ring Thung (creditada a Tolkien/Rapp, do Balaklava também).

Tom Rapp, yesterday and today