segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A guitarra inquieta de Dillo Daraujo

Em resumo: Dillo Daraujo, guitarrista das quebradas do Distrito Federal, prepara o lançamento de Guitarrafrika, disco de música instrumental, cujo título indica, tem a guitarra como protagonista e os acordes e solos fincados na África. O resultado promete ser um diálogo de muitas possibilidades entre as culturas brasileira e africana. O som de um país, o som de uma nação, uma terceira coisa por vir.

Guitarrista Dillo D'Araujo, em 2016 (Foto: Jamila Barbosa)
Antes de falar do Dillo, que toca uma baita guitarra, falemos primeiro do instrumento, a guitarra elétrica, rainha do rock’n’roll e de muitos outros gêneros musicais.

Chuck Berry e sua amante Maybelline
Começando com a pergunta: de que é feito a guitarra brasileira? Não o instrumento em si, madeira, metal, plástico e partes elétricas. Existe um som de guitarra, verde e amarelo, que faça o ouvinte reconhecer o som ou o guitarrista como sendo brasileiro, pelo jeito de tanger e planger as cordas? Sim, João Gilberto é o cara.

Passeata contra a guitarra, em 1967. Incrível, mas verdadeiro
Tá bom, mas João não é bem um guitarrista. O que ele fez com o violão, inaugurando um estilo musical, é algo fora de série. Falamos de uma identidade nacional (se isso for possível) em um instrumento musical eletrificado que já foi até objeto de repulsa neste país, caso da equivocada Passeata da MPB, mais conhecida como a Passeata Contra a Guitarra Elétrica, ocorrida em 17 de junho de 1967, em São Paulo.




Como sabemos, a guitarra brasileira não exatamente deriva do violão brasileiro, se assim pudermos confinar o instrumento criado pelos árabes, nos domínios desse imenso território nacional. Heitor Villa-Lobos não foi o primeiro a perceber na música brasileira a riqueza e extensão do instrumento derivado do alaúde, mas com muita propriedade, já na primeira metade do século XX, captou a “alma nacional” em peças para violão que se tornaram referências mundiais de técnica e interpretação, caso dos 12 Estudos para Violão.

Les Paul (1915-2009), inventor da guitarra de corpo sólido (Foto: Colin Archer/AP)
Outra obviedade: não restam dúvidas de que a guitarra elétrica tem apelo mundial. Desde os anos 1930, figuras como Les Paul e Charlie Christian, nos Estados Unidos, perceberam que o som das cordas convertido em sinal elétrico expandia as possibilidades sonoras da viagem musical. Inicialmente, cabia com perfeição nas sinuosidades do jazz. Logo demonstrou versatilidade, cabendo nos mais variados estilos musicais, nos mais variados cantos do planeta.

Trio Elétrico Dodô & Osmar, anos 1950
Nos registros históricos da evolução da guitarra elétrica consta até a contribuição brasileira. Os baianos Adolfo Nascimento e Osmar Macedo, do famoso Trio Elétrico Dodô & Osmar, nos anos 1940, cansados da microfonia nos violões com captadores que usavam, apresentaram ao mundo o pau elétrico, engenhoca cuja sonoridade era de uma distorção da peste. Nada mais do que um braço de cavaquinho com um captador atravessado. Pelo visual parece servir também para ferver água na panela.

Osmar Macedo, filhos e guitarras baianas, em 1978
Portanto, diz-se que a guitarra não teve um único inventor. Com o passar dos anos surgiram joias de instrumentos, e nomes como Fender e Gibson se tornaram sinônimos de violões e guitarras de qualidade.


Fender Stratocaster



Gibson Les Paul

E foi o rock’n’roll que adotou e tratou de espalhar a guitarra como símbolo de música urbana ocidental, urgente e estridente, introduzindo a distorção em praticamente todas as grandes manifestações musicais do planeta.

Jimi mandando brasa em Monterey, 1967
Em cada país onde o instrumento que deu a fama a Jimi Hendrix foi recebido e adicionado à música local, surgiu o sotaque da guitarra. Da mesma forma que o canto é a voz entoada que traduz uma cultura, e portanto tem sempre um sotaque, com o violão e com a guitarra, temos aparatos de linguagem musical própria, perfeitamente entrosados em boa parte da música mundial.

Dillo
Dito isso tudo, chegamos ao Dillo Daraujo, guitarrista nascido no Distrito Federal. Com mais de 20 anos de carreira, quatro discos solo na conta, prepara o disco Guitarrafrika, uma incursão instrumental, guitarras em primeiro plano, nas relações musicais entre o Brasil e a África, considerando a enorme influência do continente na formação da identidade sociocultural do povo brasileiro.



Curioso? Então acompanhe esta conversa com Dillo. O material aqui apresentado foi originalmente concebido para a revista Roteiro Brasília, cuja recente edição abriu espaço para falar do trabalho do guitarrista, compositor, produtor e multi-instrumentista candango. A entrevista foi feita no pequeno, mas simpático 1234 Recording Studio, em Brasília, durante a produção do Guitarrafrika.

Dillo, no 1234, Brasília
Blog do Hektor – Você sempre produziu todos os seus trabalhos?

Dillo Araújo – Todos, não. O último [disco], “Dillo” [2016], foi o Diego Marques.

Dillo, CD de 2016
BH – E o atual?

DA – Eu que estou assinando.

BH – Qual a diferença entre fazer sozinho ou ter um outro olhar, digo, outro ouvido?

DA – Diferença total. Tenho uns amigos em quem confio muito. Esse que o Diego produziu foi bom porque eu tive pela primeira vez a experiência de alguém de fora dirigindo. O método é diferente. Eu faria diferente de como ele fez, o que não significa dizer que é melhor ou pior. Questão de método.

BH – E tudo o que você grava é digital, edita com Pro-Tools?

DA – Tudo digital.

BH – Aqui [em Brasília] tem alguém ainda gravando em analógico?

DA – Creio que não. No final de tudo, esse novo disco, depois que ficar pronto, a gente vai passar nas máquinas de tape e devolver para o digital. Ou seja, a gente vai lá só dar uma estragadinha no som, antes de finalizar.

BH – Sujar o som, é isso?

DA – Exato. A gente trabalha um monte para ele ficar limpinho e depois suja tudo.

BH – Você já gravou em analógico, em fitas magnéticas?



DA – Quando era jovem, hahaha. Hoje em dia não existe mais isso. Não tem mais estúdios assim, não tem mais gravadores. Veja, um gravador de fita pesa um tanto. Ele precisa de um técnico só para ficar limpando os cabeçotes, cuidar dos carretéis. Esse sistema acabou. É caro, pesado, fora de uso. Um gravador de fita magnética pesa uma tonelada. Um rolo de fita, de 15 minutos, custa uns 400 dólares. É inviável. Nos Estados Unidos, muitos estúdios ainda têm gravadores analógicos. A competição por lá parece ser quem consegue tirar o som mais low-fi.

BH – Jack White parece que é um mestre nisso, hein? Ouviu falar que ele reabilitou umas cabines de gravação dos anos 1940?

Neil Young experimenta o recording booth de Jack White
DA – Exatamente. Esses caras ricos, bem-sucedidos, a fissura deles é encontrar os equipamentos mais antigos e em melhores estados. É claro que com um equipamento assim, isso vai influenciar na ambiência, na atmosfera do disco. Puro preciosismo. No final das contas, isso vai para o streaming. O cara pegou uma guitarra de 1940, um gravador de 1946, gravou em um estúdio de 1952, e tudo foi para o Spotify.

BH – Vai ouvir em mp3, som de baixa qualidade. Além do mais, as pessoas ouvem música em alto falantes e fones de ouvido ruins, concorda?

DA – Verdade. As pessoas não têm mais esses critérios de som, de ter uma boa aparelhagem em casa, como no passado. Isso está se perdendo.

BH – Aqui no estúdio, o que você está fazendo exatamente?

DA – Estou produzindo o álbum Guitarrafrika.

Dillo experimenta Guitarrafrika, no Clube do Choro, Brasília (2017)
BH – Algo a ver com aquele show de mesmo nome que você fez no Clube do Choro?


DA – Aquele show podemos dizer que foi um laboratório, pois um artista dificilmente produz um conteúdo e lança esse conteúdo integral, como vai ser para sempre. No meu caso, que sou um experimentalista, comecei esse disco tocando ao vivo, para ver como as pessoas reagiriam. A partir dessa reação, percebi, por exemplo, que alguns trechos da música estavam grandes demais, que a plateia começava a conversar. Eu suprimi esses trechos. Considero que estou preservando os trechos em que as pessoas ficam mais atentas.

BH – Quem está com você nesse projeto?

DA – Robson Assis, um baterista de Belo Horizonte; artisticamente ele se chama Robinho Batera; Lucas Tufas, no baixo, toca no Bloco das Divinas Tetas; e o Samuel Mota, que é do Muntchako. Ele toca banjo e teclado. Mais alguns convidados. O [guitarrista] Nuno Mindelis, angolano, está nesse projeto, além de uma galera sul-africana, que eu não sei pronunciar os nomes agora.

Dillo, em Cape Town, South Africa (Foto: Facebook)
BH – Você esteve recentemente em pesquisa de campo na África do Sul. O que ouviu por lá e de que maneira esses sons acabam entrando no novo disco?

DA – Estive em uma área de safaris, em um lodge (hotel-fazenda) chamado Shiduli, no Parque Nacional do Karongwe. Gravei cantos e percussão.

BH – Gravou em estúdio?

DA – Não, levei meu sisteminha de monitoração, e gravei a maioria das coisas com o celular.

BH – O celular grava com qualidade, não é?

DA – Sim, grava em wave.

BH – Nessa viagem, você encontrou alguma resposta a alguma pergunta que estava em sua cabeça?

DA – Várias. Primeiro, essa coisa de música instrumental; pra eles isso não existe. Toda música é instrumental. A voz é um instrumento. O que diferencia a música é se ela tem ou não discurso.

Nuno Mindelis (Foto: Leandro Almeida)
BH – Nuno Mindelis parece que não é um cara só do blues. Nuno é de Angola, não da África do Sul.

DA – Isso. Mas o meu estudo não é sobre a África do Sul. A proposta é a fusão Brasil-África. Nada mirabolante, apenas música. Só mais um disco.

BH – Você levou a guitarra nessa viagem?

DA – Levo ela para todo canto. Há muitos anos. Não levo roupa, para poder levar a guitarra. Ela é a minha fiel escudeira. E também um amplificador Voxzinho.

BH – Onde Nuno gravou?

DA – Em São Paulo.

BH – O novo trabalho é todo instrumental?

DA – Cem por cento instrumental.

BH – Por que instrumental, uma vez que você vinha em uma linha de canções?



DA – O meu primeiro disco [CrocoDilloGang, 2004] era para ter sido todo instrumental. Por intimação de meus amigos que estavam comigo na época – Celso Salim, Rafael Cury – disseram: canta, canta! Então ficaram umas três instrumentais e umas seis cantadas.

BH – Mas você originalmente era só guitarrista?

DA – Sim. Nem queria cantar nem nada, mas a necessidade de me expressar, e a convivência com outros compositores foi despertando o interesse por me tornar também um autor. E vi que para sobreviver de música, ser guitarrista só não bastava. Eu ia acabar parando em uma banda sertaneja...

BH – Não pensou em ser um artista do jazz, da guitarra instrumental?

DA – Não sei se hoje em dia alguém consegue sobreviver só tocando guitarra e jazz. Tem uma meia dúzia no mundo. Todas essas transformações vêm do interesse em me manter fazendo o que amo. Me interessa fazer música. Entendi que a vida é muito curta e que a gente tem que fazer o que gosta. Essas adaptações.... Eu sou darwinista. Entendo que se o dedo mínimo do pé está diminuindo, ele está perdendo a função, vai sumir. Não fico naquela: ah, tem que ter o dedo mínimo do pé! Se tiver que o suprimir, tchau.

BH – Olhando sua trajetória, sobretudo do ano 2000 para cá, percebe-se que você sabe usar bem os elementos atuais que colocam o artista em evidência, seja lançando discos regularmente, fazendo shows, e usando a internet a seu favor, com presença nas mídias sociais, vídeos, etc.

DA – Engraçado você falar isso, porque meus amigos me consideram uma anta nesse comportamento.

BH – Bem, você está falando com um cara mais antigo, que fica admirado com alguém bombando na internet.

DA – Hahaha, talvez tenhamos aqui um problema geracional. O Diego, que produziu o Dillo [2016] me disse: cara, você tem que melhorar sua presença digital; fazer dois, três posts por dia, sincronizar sei lá o quê, criar o texto específico do Tweeter. Não faço isso. Coloco uma foto no Instagram e compartilho... Não fico obcecado com isso e nem passo o dia ligado, como eles acreditam que é o modo correto.

BH – Bem, dizer para todos que você comeu ervilha, hoje, é meio demais....

DA – Exatamente. Não estou interessado nisso, estou interessado na música. Faço isso quando me sobra um tempo, e também porque sei como as coisas funcionam. Tenho medo é de desaparecer, o anonimato, não de ser copiado, pirateado, compartilhado. Temo é a indigência.

BH – Sua música está no Spotify, no Deezer, no Soundcloud, Youtube.

DA – Participo disso aí para estar. O cara está no metrô e pensa: ah, quero ouvir o Dillo. Ele vai me achar. Então, eu vou para esse canto.

BH – Você tem feedback dessa audiência?

DA – O lance é estar sendo descoberto. Igual a você, que me procurou. Cada dia que alguém me procura, é um sinal de que esse caminho está sendo observado. Mesmo que lentamente. Assim, há dois anos eu tinha 1.200 seguidores no Instagram; hoje três mil e pouquinho. As coisas vão de grão em grão, não teve aquele boom.

BH – Seguir a velha máxima de ir a onde o povo está.

DA – Sim, eu circulo. Acho que isso me difere um pouco dos músicos de Brasília, porque eu circulo.

BH – Por falar em circular, você nasceu em Brasília?

DA – Eu sou de Taguatinga. Não me considero de Brasília. Sou um suburbano.

BH – Você passou um tempo no Rio de Janeiro, não?

DA – Isso. Fui estudar música para cinema. Em 2006, a PUC [Pontifícia Universidade Católica] do Rio de Janeiro encampou o primeiro curso de cinema. Eu apliquei, fui contemplado e fui bolsista desse curso. Enfim, fui estudar música para cinema e nunca mais deixei de frequentar o Rio. Vou lá pelo menos uma vez por mês. Fiquei quatro anos no Rio, mas não deixei de vir ao Distrito Federal. Tenho uma filha de 16 anos aqui.

BH – Tem um documentário autobiográfico por aí, creio, com suas imagens no Rio, não é verdade?



DA – Isso foi o meu primeiro DVD, chama-se Música Roqueira Popular Brasileira. É um documentário autobiográfico. É uma presunção enorme uma pessoa de 30 anos fazer algo assim, mas aquilo foi um trabalho da universidade. O curso pedia uma produção do tipo. Eu juntei a fome com a vontade de comer. Tinha que fazer um documentário. A pessoa que eu mais conhecia era eu; tinha fotos e vídeos, muita coisa de arquivo, bastante coisa que saiu na mídia impressa. A [revista] Guitar Player brasileira me deu quatro páginas, fui o primeiro guitarrista brasileiro a ter quatro páginas na revista. Tudo isso me deu insumos, que eu aproveitei no documentário.

BH – Nesse, vi você falando que o meio influencia o artista. Parece impossível viver no Rio de Janeiro e não se deixar contagiar pela atmosfera da cidade, não é? Como alguém pode ser triste e sombrio naquele lugar?

Lapa fervendo, no Rio de Janeiro
DA – Exatamente. É transformador. Naquela época, o Brasil vivia dias de glória. A gente era feliz e não sabia. A economia lá em cima; o Rio de Janeiro lotado de gente do mundo inteiro. A Lapa, bombando. Bares como o Semente, que fechou recentemente, revelando vários nomes do samba: Tereza Cristina, Diogo Nogueira, eu vi isso acontecendo. Apesar de não ser dessa cena brasucona, do choro, do samba, eu via o bar Semente com duzentas pessoas na fila de entrada.

Bar Semente, Lapa (Rio)
BH – Você tocou lá?

DA – Não, não era [ambiente] do meu segmento. Guitarra elétrica não subia naquele palco, não. Veja, tinha tanto artista bom de samba querendo tocar lá. Aquilo não era o meu perfil.

BH – Onde você gostava de tocar no Rio?

Mercado São José das Artes, Laranjeiras (Rio)
DA – Gostava do Mercado São José [das Artes], em Laranjeiras, um lugar chamado Bar do B. Acho que o Rio de Janeiro já foi a cidade mais interessante da América do Sul. Esteticamente, de uma riqueza incrível. Ali estava o Brasil moderno, a televisão, as gravadoras... Em São Paulo, as indústrias, o dinheiro; no Rio, as artes, a beleza topográfica.



BH – Sei. Você vê sua composição Mamãe, Mamãe como um marco na sua carreira? Você ganhou prêmios com ela.

DA – Não. É só mais uma música. Das que eu fiz, foi a que me deu prêmios. Trocaria tudo por dinheiro. Se quiserem os troféus... Hahaha. Na verdade, isso é uma piada. A gente precisa de troféus para ficar olhando, para que a gente saiba quem a gente é. Esses troféus são legais, tipo: aí, garoto, vai em frente, força, não desiste, não!

BH – Não dá notoriedade?

DA – Sim. Gera trabalho. Estou produzindo o disco de uma banda [de Brasília], em que os caras me convidaram, na esperança de que eu vá modernizar o som deles. A condição em que eu colocando a mão, quem sabe isso vai gerar prêmios para eles.

BH – Um Midas?

DA – Midas, não. Um auxílio, no sentido de que eu já faço isso há muito tempo. Tenho experiência de estúdio, já gravei inúmeros discos, fora os meus. Comecei lá atrás, nos anos 1990 com o Renato Matos. Toquei com ele de 1994 a 1998. Gravei em estúdios, tipo o Artimanha, em fitas de meia polegada. Tudo ao vivo. Na mixagem, um vigiando o outro, para não sobressair o instrumento. A tática era trocar: o baixista ficava com o bumbo e caixa, o guitarrista ficava com o teclado, o tecladista com a voz, para não deixar ninguém roubar, na hora de passar para fita máster.





BH – No disco Jacaretaguá [2012], na faixa Em Cruz Ilhada, você faz uma referência ao famoso solo de sax de Baker Street, canção do [escocês] Gerry Rafferty. De onde veio a inspiração para usar esse trecho?


DA – Uma citação. Procurei repetir o timbre daquele solo. Na verdade, esses são signos melódicos. Ouça Tom Jobim, ali tem Chopin. Em João Donato, tem Debussy. A música ocidental, da maneira como foi estabelecida, doze notas, sete tons, e cinco semitons, e as possibilidades matemáticas de combinação de tempo, duração e pausa, isso está esgotado. Não há uma combinação possível inédita na música ocidental.

BH – Por isso que em uma canção você ouve elementos que reconhece ter ouvido em algum lugar?



DA – Sim. Se você quiser uma melodia com um signo rítmico diferente, vá para o oriente. Índia, Paquistão, ali é possível. É música modal, sensorial. No nosso mundo ocidental, [mostrando o braço da guitarra, até a décima-segunda casa] isso aqui já foi mapeado. Não há nada que você possa fazer de inédito.

BH – Acho que o legal é a reinvenção, concorda?

DA – É, é o que a gente faz. Veja, citações não são cópias. [No caso de] Em Cruz Ilhada, quando entra o trecho em português, vira outra coisa. Tem sido assim há muito tempo.

BH – Você nunca foi de usar samples musicais, não é?


DA – O disco Jacaretaguá é meio contaminadinho, tem coisas psicodélicas, tipo a introdução de Jabazinho, cheia de samples.

BH – Você tem feito muitas parcerias musicais, como com o [bandolinista] Hamilton de Holanda, e outras com o [Roberto] Frejat e o André Gonzales [Móveis Coloniais de Acaju].


DA – Hamilton gravou no [disco] Mestiço [2008]; Frejat e André, no Dillo [2016]. Tenho muitos parceiros. Como faço música para os filmes dos meus parceiros, eles fazem vídeos pra mim. Gosto dessa coisa da troca, da economia solidária, onde o dinheiro não é a principal turbina para as coisas acontecerem. É outra coisa. No momento, estou fazendo a trilha de uma animação para uma produtora, eles devem fazer uns vídeos. Acaba que ninguém paga ninguém, e todo mundo trabalha. Disso, sai um resultado legal e a gente ganha prêmios. Aí, que vêm os trabalhos por conta desse esforço. Tudo é muito dinâmico. Não tenho gravadora, não tenho chefes, tudo o que faço é parceria. Às vezes gravo uma coisa e um ano depois aparece um dinheiro por causa desse trabalho. Foi o caso do [filme] O Último Cine Drive-In [2015], que está no Netflix. Não fiz sozinho, foi a quatro mãos: eu, Sascha Kratzer (alemão que vive em Brasília); o Bruno [Berê], do Pé de Cerrado e o Zé Pedro Gollo. Tem muita guitarra nesse filme; aquela guitarra sou eu. Quando faz um trabalho desses você não sabe se vai receber, mas aí...



BH – Você tem uma parceria interessante com o Nuno Mindelis.

Nuno Mindelis e Dillo, Brasília, 2017 (Foto: Luara Baggi)
DA – Também. Tocamos juntos. É um cara foda!


BH – A música que vocês fizeram, Fica Para o Próximo Disco, tem uma letra muito engraçada, muito boa. O que está ali é tudo verdade?

Pedi uma letra ao Lenine, 
ele tava ocupado tava indo pra Lisboa 
pra cuidar de um outro lado 
mas meu sempre obrigado/ 
Disse que eu precisava muito, me expressar em português/ 
Citando a lusofonia ele disse prescindimos da palavra, eu e você/ 
Liguei pro Arnaldo Antunes, ele ainda não tinha voltado/ 
voltaria só depois acho que era feriado, estava fora até dia 02/ 
Encontrei Charles Gavin, pedi o número do Nando Reis/ 
Mas ainda não liguei, não liguei, sei lá, porque razão/ 
Fica para o próximo disco, seja quando ele for/ 
talvez nem seja um cd, só uma música no computador

DA – Ali tem muitas verdades e alguma fantasia também. Eu não teria a cara de pau de escrever uma carta para o Erasmo [Carlos], para fazer um disco junto com ele. O legal é isso, ficção e realidade juntas. É verdade que convidei o Frejat e ele topou, mas disse: Bicho, só não posso agora porque estou de férias, mas assim que chegar ao Rio, você vai lá no estúdio e tal.

BH – Como você define seu estilo musical? É possível definir?

DA – Faço música do mundo. Essas gavetas das lojas de discos que definiam os estilos não existem mais.

BH – Voltando à África, como foi a experiência de tocar lá?




DA – Foi demais. Vou voltar. O pessoal do consulado brasileiro esteve presente, eu fiquei com aquele medo, porque fui a turismo, não podia trabalhar. Mas eles disseram: estamos carentes de atrações brasileiras aqui. Não fui por convite, fui para fazer pesquisas. Há algum tempo quero gravar um disco instrumental. Mas não quero fazer um instrumental qualquer, só para fazer. Pensei, qual seria a minha contribuição? Sou um guitarrista brasileiro, tenho uma identidade nordestina, flerto com a guitarrada paraense, por conta do meu trabalho com o Sistema Criolina, que toca música de pista, lambada, carimbó.

BH – Você esteve no Pará, pesquisando?

DA – Não. Isso veio por osmose. Quando criança, lembro que nas festas tocava lambada. Lembra do apogeu, quando a lambada estourou, que tinha concurso de lambada na televisão?



BH – Kaoma? Chorando se foi quem/ Um dia só me fez chorar.... Desculpe, você estava falando da experiência africana.

Fela Anikulapo Ransome Kuti (1938-1997)
DA – Isso. Gosto das matrizes rítmicas africanas e acho que posso contribuir com o meu conhecimento de guitarra brasileira. Montar uma banda de afrobeat, chamar uma galera para fazer metais, e dois percussionistas, igual ao que Fela Kuti fez, não é bem isso. O que posso provocar? Exatamente a fusão da guitarra brasileira com a matriz rítmica africana. Mas eu precisava ir lá ver qual é, sentir a música feita naquele país, o sabor, o cheiro, o tempero. Engoli tudo o que podia, captei algumas coisas, que já estão em andamento [no novo disco].

BH – Eles têm uma levada de guitarra bem peculiar. Interessante perceber esse DNA na guitarrada paraense, sabendo que essa influência africana vem do Caribe, Guianas. Ouvi muito isso em Belém.

Aldo Sena, Mestre Vieira, Mestre Curica (Foto: Luiz Braga)
DA – Então você conhece essa turma [da guitarrada], Aldo Sena, Mestre Vieira, Mestre Curica. É a conexão afro-caribenha que entrou pelo Pará. Os navios que saíam da Dominica e entravam por Barcarena. Sou amigo do Pio Lobato, que me indicou muita coisa. Na vida, fui conhecendo essa turma, o Félix Robato, participando de festivais com esse pessoal. Eles me diziam, escuta isso....

BH – Pois é, quem escuta o seu som, pensa: esse cara é do blues, mas parece que foi parar em outro lugar.

DA – Ainda bem. Amo Dominguinhos, Hermeto Peschoal, Luiz Gonzaga. Amo B.B. King, Robert Johnson. Por que não botar tudo dentro da mesma caçarola?

BH – Mas quando começou você queria o quê? Tocar blues?

DA – Queria ser guitarrista. Não traçava planos.

BH – No início não tinha fissura por metal, rock’n’roll, blues?

DA – Não. Nunca quis tocar uma coisa só. Fui criado ouvindo música nordestina. Meu pai é nordestino pernambucano, o que tinha em casa era Jackson do Pandeiro, Zenilton, também tinha Quarteto Novo, Quinteto Armorial, tinha essa música modal, meio moura, ibérica, e os cocos, os coquinhos de feira.

BH – Sua família é musical?

DA – Meu pai é músico amador, a família da parte dele, todo mundo toca. Quem não toca, canta. Quem não canta, dança.

O infante Dillo
BH – Acho que vi uma foto sua, criança, com um acordeom.

DA – Minha mãe lembra que eu tocava antes mesmo de aprender a falar. Eu emulava a melodia na sanfona. Eles não falavam: bota esse menino pra estudar música. Eu engatinhava e tinha uma sanfona no sofá. Era curiosidade, eu não tinha uma consciência das coisas.

BH – Mas você teve educação musical formal?

DA – Na adolescência. Fui educado pelos meus tios e meu pai com o que eles sabiam. Um conhecimento que passava de geração a geração, lá no sítio do meu avô, em Pau Ferro, no interior de Serra Talhada, no cu do Nordeste.

BH – Lá pras bandas de Cabrobó do São Francisco.

DA – Exatamente. Perto de Cabrobó, no Polígono da Maconha. Terra de cabra valente, matador, hahaha.

BH – Então o seu primeiro instrumento foi a sanfona?

DA – Isso. Só que a sanfona era grande e pesada.

BH – E onde ouviu a guitarra pela primeira vez?

Angus Young fazendo a coisa certa (no chão)
DA – Na televisão. Na época do primeiro Rock In Rio [1985], na propaganda aparecia o Angus Young [AC/DC] tocando guitarra. Eu dizia: caralho! Que porra é essa? Muito mais legal que a sanfona! E no início tinha a coisa da rejeição: ah, meu pai gosta de forró; não quero saber disso, não. Queria o contrário, a rebeldia. Por ser elétrica, a guitarra tem muitos recursos de filtros. Pode passar ela por pedais, são vários instrumentos; já a sanfona, você toca ou não toca.

BH – Mais um menino que se encantou com a distorção elétrica.

DA – A distorção. Primeiro Jimi Hendrix, fazendo ritual xamãnico no palco com o instrumento. Aquilo tinha um download sobrenatural. Eu falei: puta que pariu! Que onda massa!

BH – Você tem preferência por um tipo de guitarra em particular? Gibson Les Paul? SG?

DA – Não. Gosto de guitarra.

Dillo Trio e O Canto da Guitarra, Brasília, 2017
BH – No show O Canto da Guitarra você conta a história do instrumento.

DA – Isso. Nesse, tenho a pretensão de contar a história da guitarra em uma hora e meia de show. Não sou o autor. Começo lá nos anos 1940, com Santo & Johnny, quando começaram a criar os primeiros captadores de indução elétrica. A guitarra havaiana. Depois, os anos 1950, toco um pouco de Carl Perkins, Chet Atkins; anos 1960, Beatles, Stones, Jimi Hendrix, Frank Zappa, Led Zeppelin, Deep Purple... Nem toco as músicas na íntegra, faço um mash-up, como fazem os DJs, orgânico, ao vivo. Saio do Frank Zappa, já entro no ZZ Top, daí para os Dire Straits... Tudo com um trio [Vinicius Correa, bateria; Alexandre Macarra, baixo]. Fiz esse show no Clube do Choro [em Brasília], com vários convidados: Adriah, Haroldinho Mattos, guitarristas amigos. Foram músicas com duas guitarras. Um começa, o outro entra. Foi legal, lotou o Clube do Choro.

BH – Agora é janeiro de 2018. Quando teremos a chance de ver Dillo novamente no palco?

DA – Por enquanto, não tenho nada previsto em Brasília. Estou indo ao Chile, tocar no festival Rockódromo, o maior festival de música do país. Volto e nada de shows por aqui. Na verdade, tenho tocado cada vez menos em Brasília. Curiosamente, as pessoas me chamam menos.

BH – A cena musical aqui tá ruim, não é?

DA – Tá ruim, acham que eu sou caro ou acham que eu não estou aqui. Trabalho menos aqui, ao vivo. Também fecharam as casas de shows. Aqui, só toco no Clube do Choro. Ou em um ou outro evento, no CCBB, no Na Praia, isso quando o contratante acha que eu tenho o perfil, como foi um show com o Nuno Mindelis. O contratante achou que eu me encaixava. Ou então, para tocar na abertura do show de alguém. Toda vez que o Tom Zé vem a Brasília, me chamam. Fazem a associação da música dele com a que eu faço. Isso aconteceu naturalmente.

BH – Por causa da veia satírica e o experimentalismo?

DA – Talvez a corrosão no texto, a ironia.

BH – Falando em texto, você passou a dar ênfase às coisas mais elaboradas como letrista. Você não é só um guitarrista ou um cantor. É um cara que pensa e escreve, que busca os significados das palavras.

DA – Sou faminto pelas coisas. Preciso escrever letras? Então vou ler Augusto de Campos, preciso mergulhar nas palavras. As referências são literárias e estão em tudo, onde a palavra se apoia.

BH – O Lenine disse que você precisa se expressar em português....

DA – Hahaha. Esse verso [de Fica Para o Próximo Disco] é do Nuno Mindelis. Os meus versos são os que falam do Frejat, do Erasmo, do Nando Reis. O Nuno fala do Lenine e do Arnaldo Antunes. Quando você faz música com letra, o idioma determina muitas coisas musicais. O inglês é muito flexível. O português, não. Ele é uma bicicleta de roda quadrada. Você tem que saber como fazer. Tem gente que nasce com a intuição. Tenho certeza que o Tim Maia não estudou nada, mas mesmo assim, ah! Saíram todas aquelas músicas maravilhosas. Pra mim, que sou um mero mero, tenho que me debruçar e suar a camisa para fazer algo.

BH – Métricas, rimas, estrofes....

DA – Prosas. Tem que estudar, né?

BH – Você já compôs em inglês, não é?

DA – Sim. Em meu primeiro disco tem várias músicas em inglês. É fácil. Com essa guitarra e essa caneta, faço agora uma música em inglês. Sem arrogância.

BH – Quem influenciou musicalmente o seu trabalho?

DA – Nossa Senhora! A lista vai longe.

BH - Guitarristas?

DA – Só guitarristas?

BH – Fique à vontade.

DA – Vou tentar. Luiz Gonzaga, Jimi Hendrix, João Donato e Jeff Beck. [Pausa] Esses quatro...

BH – Não precisa dizer mais nada.

DA – Todo mundo fica ali orbitando. Jimmy Page em Jimi Hendrix. Eric Clapton....

BH – E esses guitarristas do rock progressivo? David Gilmour?

DA – Putz, quem não gosta de David Gilmour e aqueles solos? Pink Floyd. Até um bebê fica assobiando aquele som.

BH – Tem interesse nesse som mais viajante?




DA – N’O Canto da Guitarra tem uma coisa bem jazz, no sentido de música livre. O tema que a gente toca é Willie The Pimp, do Frank Zappa: paran-pan-pan-pan-pan-pan-pan. Eu vou solando livre, é o que chamamos de jazz. Estou improvisando, intuindo uma coisa que está saindo na hora. No estúdio, não tem espaço para solos de guitarra. Nesse novo disco instrumental, é tudo assobiável.

BH – Você está falando em músicas de 4, 5 minutos?

DA – Três minutos.

BH – Solos grandes de 10 minutos cansam, não? Distraem o ouvinte.

DA – Já tive essas fases. Juntava os amigos, churrasco, bebendo vinho, sem ninguém observando, plateia, cinco guitarristas, três ao mesmo tempo. A gente ficava fazendo jam session o dia inteiro. Ficávamos bêbados, rolavam uns baurets. A fase que eu andava com o Celso Salim, que ama os Allman Brothers, tinha isso, de tocar uma música por 18 minutos. Outro dia, em um churrasco no Park Way, teve uma reunião dessas com uns dez guitarristas. A guitarra passava de mão em mão, a música durou mais de uma hora. Mas isso não é para plateia. Isso acontecia naquele tempo dos hippies, do ácido lisérgico.

BH – Hoje o mercado não tolera mais isso.

DA – Não permite mais isso. Você encontra essas coisas em festivais específicos de música psicodélica. Mas em geral, as pessoas nem lembram que estiveram nesses festivais. Hahaha.

BH – Todo mundo sequelado. Obrigado pela atenção.

DA – Não há de quê.



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Dire Straits (ou quase) em Brasília


Resumindo: de certa forma decepcionante a apresentação da banda Dire Straits Legacy, em Brasília. O som do ginásio Nilson Nelson comprometeu a qualidade do show, em que pese a presença de grandes músicos do rock britânico, nesse tributo à banda criada pelo guitarrista escocês Mark Knopfler. Não apenas. O público inconveniente também marcou presença.

No estudo básico da Física consagrado às ondas, o som tem destaque, com suas características dissecadas, que permitem certo entendimento desse fenômeno, um tanto parecido com a luz. Basta folhear qualquer livro de princípios da Física: está lá que as ondas sonoras estão sujeitas a fenômenos como a reflexão, refração, difração e interferência.



Por ora, fiquemos com esse último. A interferência, é fácil perceber, ocorre quando ondas sonoras emitidas por mais de uma fonte se encontram, sendo comum que uma destrua a outra, gerando com resultado o barulho indesejado e perturbador.

DSL em Brasília (21/janeiro/2018)
Do ponto de vista físico, foi o que ocorreu na noite de domingo (21/01), no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, quando da apresentação da banda Dire Straits Legacy, excelente tributo ao extinto grupo liderado pelo guitarrista escocês Mark Knopfler. O DSL é formado por ex-membros dos Dire Straits, e músicos afins, que se juntaram para tocar em frente o legado da banda de Mark Knopfler.


Não é preciso ir até o fim desse texto, para saber o que ocorreu em Brasília. O som do ginásio Nilson Nelson foi pessimamente preparado para dar conta do recado. E de certa maneira frustrou a expectativa. Cerca de 10 mil pessoas (!) – excelente público – encheram a casa, querendo um pedaço daquilo que nunca tiveram: curtir Dire Straits (que nunca tocou no Brasil) ao vivo, mesmo com a ausência imperdoável da guitarra de Mark Knopfler.

Mark Knopfler, grande ausente
Aquele ginásio, no centro de Brasília, não é exatamente uma casa de shows, mas sim uma arena esportiva, na qual os espectadores costumam depender mais da visão do que da audição. Quem vai a evento esportivo, quer ver o que está acontecendo. Ouvir é detalhe, que complementa a experiência.


No caso do DSL, ficou claro que a sonorização adotada pela produção do evento só podia dar no que deu, em interferência e barulho que impediram a audição clara e, por conseguinte, a curtição das músicas dos Dire Straits que, em disco, são apresentadas como um primor de gravação. Que o diga o álbum best-seller Brothers In Arms (1985), um marco na indústria fonográfica mundial quando da transição do LP para o CD, etc.


No Nilson Nelson, os alto-falantes posicionados apenas à frente do palco tiveram alcance limitado como fonte sonora. A qualidade do áudio diminuiu em relação à distância da fonte e o barulho acabou com a festa. Quem estava nas cadeiras ou nas mesas posicionadas ao fundo da parte inferior do ginásio recebeu o som embolado e sem definição; quem estava nas arquibancadas, sofreu mais. Como o conjunto de caixas de som era limitado, de fraca potência, nas arquibancadas a música se perdeu. A interferência causada pelo barulho das conversas da plateia acabou por soterrar o som do Dire Straits Legacy.

Profusão de celulares: melhor filmar que curtir o show
Aliás, uma observação. Muita gente reunida, é multidão. Multidão dificilmente fica quieta. Em show de rock, ficar quieto não combina muito com a situação. Mas o comportamento de turba, esse é imperdoável. Bastava a banda baixar o tom, ir para as partes mais lentas da música, e a turba não se aguentava, desatando um falatório que subia ao teto do ginásio. Um decibelímetro atestaria que os níveis de pressão sonora do ambiente estavam bem acima do suportável, não pelo rock que saía dos alto-falantes, mas pelas conversas ensurdecedoras que atrapalhavam a audição.


Ademais, outro fator, o comportamental, diz muito sobre a situação. Por que diabos as pessoas passam o show inteiro gravando a apresentação no celular? Isso não é novidade. No show do DSL, poucas vezes a turma do gargarejo pulou e vibrou. O que mais se via eram pessoas estáticas, smartphones em punho.

Quanto ao falatório, a atitude não foi apenas desrespeitosa para com os músicos e com aqueles que gostariam de realmente ter apreciado o show. Parece ter a ver com aspectos culturais típicos do comportamento dos brasileiros privilegiados, aqueles capazes de pagar ingresso, e que não exatamente por isso estão se lixando para códigos de conduta, etiquetas do comportamento em público.

Brothers In Arms
Nesse aspecto, a reflexão vai mais longe. Nos faz lembrar que a música de Mark Knopfler com suas referências fincadas nas antigas baladas das Ilhas Britânicas tem algo de nostálgico e melancólico. Algo que não combina com o clima festeiro do brasileiro que vive abrasador clima de verão, pré-Carnaval. O povo queria rock, não coisas sobre montanhas enevoadas e frias. Portanto, nas passagens mais lentas, que tal botar o papo em dia? 

Evento x música. Como dito, é show de rock, não missa católica ou culto protestante. Mas ainda assim, resta a música, que é o que justifica o evento. O raciocínio de consumidor é simples. Você pagou pelo ingresso, merece o que foi prometido. E o que foi prometido era a música dos Dire Straits, canções que marcaram muitas vidas, uma era inteira, se pensarmos no contexto que se encaixa a música de Mark Knopfler e associados.


Quem veio tocar a música dos Dire Straits? Ex-membros da banda estavam lá: Alan Clark (teclados), Danny Cummings (percussão), Mel Collins (sopros) e Phil Palmer (guitarra) estiveram, nos momentos de ouro, em gravação e ao vivo com Knopfler e os componentes originais. Além de Steve Ferrone (bateria de Tom Petty & The Heartbreakers), os italianos Marco Caviglia (voz principal e guitarra) e Primiano Di Biase (teclados), e o lendário Trevor Horn (Buggles, Yes, Art of Noise), no baixo.

Lendas: no sax, Mel Collins; no baixo, Trevor Horn
Em síntese, um time de primeira. Para este autor, uma sensação indescritível ver os lendários Mel Collins e Trevor Horn em ação no mesmo palco. O primeiro pôs o saxofone em discos lendários do King Crimson, Camel, Rick Wright, Alan Parsons Project e Tears For Fears. Quanto a Trevor Horn, o disco Drama (1980), do Yes, responde a várias perguntas. E se não bastasse, é um dos criadores do Art Of Noise e do selo Zang Tuumb Tumb (ZTT), marco na moderna música eletrônica.

Derretendo corações: Sade em Brasília, outubro de 2011 
Todos, incluindo o público, mereciam espaço com acústica decente. Só para lembrar, a cantora Sade fez show memorável, no mesmo lugar, em 2011. Nessa ocasião, o som parecia o de um CD. Crystal clear.

Tributo impagável: Tim Nice But Dim (Harry Enfield), 1997: