segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Dire Straits (ou quase) em Brasília


Resumindo: de certa forma decepcionante a apresentação da banda Dire Straits Legacy, em Brasília. O som do ginásio Nilson Nelson comprometeu a qualidade do show, em que pese a presença de grandes músicos do rock britânico, nesse tributo à banda criada pelo guitarrista escocês Mark Knopfler. Não apenas. O público inconveniente também marcou presença.

No estudo básico da Física consagrado às ondas, o som tem destaque, com suas características dissecadas, que permitem certo entendimento desse fenômeno, um tanto parecido com a luz. Basta folhear qualquer livro de princípios da Física: está lá que as ondas sonoras estão sujeitas a fenômenos como a reflexão, refração, difração e interferência.



Por ora, fiquemos com esse último. A interferência, é fácil perceber, ocorre quando ondas sonoras emitidas por mais de uma fonte se encontram, sendo comum que uma destrua a outra, gerando com resultado o barulho indesejado e perturbador.

DSL em Brasília (21/janeiro/2018)
Do ponto de vista físico, foi o que ocorreu na noite de domingo (21/01), no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, quando da apresentação da banda Dire Straits Legacy, excelente tributo ao extinto grupo liderado pelo guitarrista escocês Mark Knopfler. O DSL é formado por ex-membros dos Dire Straits, e músicos afins, que se juntaram para tocar em frente o legado da banda de Mark Knopfler.


Não é preciso ir até o fim desse texto, para saber o que ocorreu em Brasília. O som do ginásio Nilson Nelson foi pessimamente preparado para dar conta do recado. E de certa maneira frustrou a expectativa. Cerca de 10 mil pessoas (!) – excelente público – encheram a casa, querendo um pedaço daquilo que nunca tiveram: curtir Dire Straits (que nunca tocou no Brasil) ao vivo, mesmo com a ausência imperdoável da guitarra de Mark Knopfler.

Mark Knopfler, grande ausente
Aquele ginásio, no centro de Brasília, não é exatamente uma casa de shows, mas sim uma arena esportiva, na qual os espectadores costumam depender mais da visão do que da audição. Quem vai a evento esportivo, quer ver o que está acontecendo. Ouvir é detalhe, que complementa a experiência.


No caso do DSL, ficou claro que a sonorização adotada pela produção do evento só podia dar no que deu, em interferência e barulho que impediram a audição clara e, por conseguinte, a curtição das músicas dos Dire Straits que, em disco, são apresentadas como um primor de gravação. Que o diga o álbum best-seller Brothers In Arms (1985), um marco na indústria fonográfica mundial quando da transição do LP para o CD, etc.


No Nilson Nelson, os alto-falantes posicionados apenas à frente do palco tiveram alcance limitado como fonte sonora. A qualidade do áudio diminuiu em relação à distância da fonte e o barulho acabou com a festa. Quem estava nas cadeiras ou nas mesas posicionadas ao fundo da parte inferior do ginásio recebeu o som embolado e sem definição; quem estava nas arquibancadas, sofreu mais. Como o conjunto de caixas de som era limitado, de fraca potência, nas arquibancadas a música se perdeu. A interferência causada pelo barulho das conversas da plateia acabou por soterrar o som do Dire Straits Legacy.

Profusão de celulares: melhor filmar que curtir o show
Aliás, uma observação. Muita gente reunida, é multidão. Multidão dificilmente fica quieta. Em show de rock, ficar quieto não combina muito com a situação. Mas o comportamento de turba, esse é imperdoável. Bastava a banda baixar o tom, ir para as partes mais lentas da música, e a turba não se aguentava, desatando um falatório que subia ao teto do ginásio. Um decibelímetro atestaria que os níveis de pressão sonora do ambiente estavam bem acima do suportável, não pelo rock que saía dos alto-falantes, mas pelas conversas ensurdecedoras que atrapalhavam a audição.


Ademais, outro fator, o comportamental, diz muito sobre a situação. Por que diabos as pessoas passam o show inteiro gravando a apresentação no celular? Isso não é novidade. No show do DSL, poucas vezes a turma do gargarejo pulou e vibrou. O que mais se via eram pessoas estáticas, smartphones em punho.

Quanto ao falatório, a atitude não foi apenas desrespeitosa para com os músicos e com aqueles que gostariam de realmente ter apreciado o show. Parece ter a ver com aspectos culturais típicos do comportamento dos brasileiros privilegiados, aqueles capazes de pagar ingresso, e que não exatamente por isso estão se lixando para códigos de conduta, etiquetas do comportamento em público.

Brothers In Arms
Nesse aspecto, a reflexão vai mais longe. Nos faz lembrar que a música de Mark Knopfler com suas referências fincadas nas antigas baladas das Ilhas Britânicas tem algo de nostálgico e melancólico. Algo que não combina com o clima festeiro do brasileiro que vive abrasador clima de verão, pré-Carnaval. O povo queria rock, não coisas sobre montanhas enevoadas e frias. Portanto, nas passagens mais lentas, que tal botar o papo em dia? 

Evento x música. Como dito, é show de rock, não missa católica ou culto protestante. Mas ainda assim, resta a música, que é o que justifica o evento. O raciocínio de consumidor é simples. Você pagou pelo ingresso, merece o que foi prometido. E o que foi prometido era a música dos Dire Straits, canções que marcaram muitas vidas, uma era inteira, se pensarmos no contexto que se encaixa a música de Mark Knopfler e associados.


Quem veio tocar a música dos Dire Straits? Ex-membros da banda estavam lá: Alan Clark (teclados), Danny Cummings (percussão), Mel Collins (sopros) e Phil Palmer (guitarra) estiveram, nos momentos de ouro, em gravação e ao vivo com Knopfler e os componentes originais. Além de Steve Ferrone (bateria de Tom Petty & The Heartbreakers), os italianos Marco Caviglia (voz principal e guitarra) e Primiano Di Biase (teclados), e o lendário Trevor Horn (Buggles, Yes, Art of Noise), no baixo.

Lendas: no sax, Mel Collins; no baixo, Trevor Horn
Em síntese, um time de primeira. Para este autor, uma sensação indescritível ver os lendários Mel Collins e Trevor Horn em ação no mesmo palco. O primeiro pôs o saxofone em discos lendários do King Crimson, Camel, Rick Wright, Alan Parsons Project e Tears For Fears. Quanto a Trevor Horn, o disco Drama (1980), do Yes, responde a várias perguntas. E se não bastasse, é um dos criadores do Art Of Noise e do selo Zang Tuumb Tumb (ZTT), marco na moderna música eletrônica.

Derretendo corações: Sade em Brasília, outubro de 2011 
Todos, incluindo o público, mereciam espaço com acústica decente. Só para lembrar, a cantora Sade fez show memorável, no mesmo lugar, em 2011. Nessa ocasião, o som parecia o de um CD. Crystal clear.

Tributo impagável: Tim Nice But Dim (Harry Enfield), 1997:


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Ruy Godinho e o amor pela música popular brasileira

Então, foi assim, Ruy Godinho? (Foto: Elizabeth Braga)
Dentro do propósito de só movimentar este espaço quando algo realmente relevante mereça ser dito, ocupemo-nos agora com o trabalho desenvolvido pelo radialista e escritor Ruy Godinho, autor da série de livros “Então, Foi Assim?”, a qual conta a origem de canções marcantes da música popular brasileira.

Radicado em Brasília, Godinho conseguiu quebrar o cerco imposto pelo capitalismo selvagem, digo, pelo mercado (incluindo as políticas governamentais do setor etc) que pouca ou nenhuma importância dá aos produtos culturais que não sejam aqueles rentáveis programados pelas grandes estruturas. Falando claramente, à revelia das corporações que mandam na cultura neste país, Godinho conseguiu emplacar de maneira independente mais um volume da série. O quarto livro foi lançado em Brasília neste final de 2017 e vem somar ao inédito inventário das origens do nosso cancioneiro, iniciado quando da edição do primeiro livro, em 2008.




Agora são 226 canções biografadas (ver abaixo a relação completa), distribuídas da seguinte maneira: 80, no primeiro volume (2008); 62, no volume dois (2010); 44, no terceiro livro; e agora mais 40 vêm somar ao todo, com a ressalva de que algumas canções ganharam retificações nos volumes posteriores. Pouco importa. Essas duzentos e tantas, além de nos trazer grandes lembranças, pois foram trilhas sonoras de momentos marcantes, revelam um tanto dos processos criativos lítero-musicais e circunstâncias de toda ordem (históricas, sociais, pessoais), o contexto, o pano de fundo por trás de cada canção.


Só para finalizar esse preâmbulo, nariz-de-cera, como queiram chamar, vale a menção de que o material aqui apresentado deriva de uma pauta que o autor deste blog realizou para a revista Roteiro Brasília, uma das publicações que teimam em existir em formato físico (papel) na capital da República.

Inicialmente uma revista que vinha encartada no extinto jornal econômico Gazeta Mercantil, a Roteiro Brasília há muito tem vida própria e pode ser encontrada nos bons restaurantes e pontos de cultura espalhados por Brasília. Na web, o endereço certo é o seguinte: https://issuu.com/revistaroteirobrasilia.

Aos editores da publicação, mais uma vez o agradecimento por permitir o uso expandido do material originalmente coletado para a revista.

Aos autores das fotos, aqui não creditadas, as mais sinceras desculpas pelo uso do material.

Antes de passar ao tradicional ping-pong, deixemos que Ruy Godinho se apresente em poucas palavras:

Sou paraense. Saí de Belém em 1982. Vim para Brasília cursando Direito. Era bancário do Banco da Amazônia. Em Belém, fiz parte do Grupo Experiência: Geraldo Sales, Natal Silva, Paulão Fonseca, José Leal, o Zecão, trabalhei com esse pessoal. Participei da montagem de Foi Boto, Sinhá. Eles estavam montando [a peça] Verde-Ver-O-Peso, quando eu estava arrumando as malas. Eu namorava uma paraense que veio para Brasília. Daí resolvi: vou embora. Era um rabo de saia. Nasci em Belém, mas renasci aqui [em Brasília], em 1982.

Sobre o Então, Foi Assim? programa de rádio, estamos presentes em 270 emissoras em todo o Brasil. Aqui em Brasília, na Rádio Cultura FM (100,9 MHz), às terças, quartas e domingos. Na verdade, é um inter programa. A história de uma música em cinco minutos e toca essa música.

O título Então, Foi Assim? surgiu da seguinte maneira: eu estava escrevendo o livro, já bem adiantado, no escritório, o [cantor] Eduardo Rangel chegou, daí eu falei: “Lê essa história aqui, Du”. Ele disse: “Cara, que interessante. Não sabia que tido sido assim”. Deraldo Goulart, colega, radialista da Rádio Senado, veio me visitar, pegar discos para o programa dele. Eu: “Lê essa história aqui”. Ele leu e disse: “Então, foi assim? ”. Essa expressão sempre voltava e eu pensando em coisas do tipo “Desvendando histórias da música popular brasileira”. Até que vi que esse nome não dava pé. Tem que ser algo mais curto. Um belo dia estava almoçando, deu um estalo: “Então, Foi Assim? ”. Cara, eu larguei tudo e corri para o computador, para ver como ficava. O artista que criou a arte da capa usou a clave de fá como ponto de interrogação. Quando você abre o livro, vê que é a clave de fá. Acho tudo muito bem trabalhado, e pensado. Enquanto tiver controle sobre os livros, essa vai ser a arte. Mudo as cores, para identificar os volumes. 

A interrogação vira uma clave de Fá
A entrevista:

Blog do Hektor – Biografar canções não parece algo novo, mas do jeito que você concebeu com a série Então, Foi Assim? parece não ter igual no Brasil.

Ruy Godinho – Quando o volume um da série de livros Então, Foi Assim? foi lançado, em 2008, não existia no mercado editorial brasileiro uma obra que fosse destinada ao mapeamento de processos criativos, a revelação de como funcionam as parcerias [musicais] e suas particularidades, e nem as biografias das canções. Fomos pioneiros no Brasil.

BH – Ouvi falar que você é o Biógrafo das Canções.

RG – Exato. Foi o Gabriel de Sá, jornalista do Correio Braziliense, que deu esse título. Achei apropriado, apesar de não ter pensado assim.

BH – Bem, só de olhar os livros e o tratamento dado percebe-se que aqui temos um amante da música popular brasileira, um entusiasta da canção que vai fundo na matéria. As canções são radiografias de momentos?

RG – Muita gente tem curiosidade e fica surpresa ao tomar conhecimento de que determinadas canções foram feitas para um outro enfoque que não aqueles que elas imaginavam inicialmente. Por exemplo: “Sonho meu/ sonho meu/ vai buscar quem mora longe/ Sonho meu”.

BH – Dona Ivone Lara?


RG – Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho. A letra não foi feita para um amor distante. O Delcio Carvalho pegou o mote da letra, ouvindo no rádio do ônibus, a campanha pela anistia, ampla, geral e irrestrita. Foi quando começou a abertura do processo político brasileiro, pois estávamos ainda na ditadura militar, e a campanha pedia a anistia para que os exilados brasileiros voltassem ao país, sãos e salvos. E o Delcio Carvalho achou aquilo interessante, justo, e daí veio a ideia de que aquilo era um sonho: buscar quem mora longe. Pra matar essa saudade e devolver a liberdade a essas pessoas. As pessoas nem imaginam que essa canção foi feita assim. Pensam que foi para um amor distante.

BH – O poder do rádio.

RG – Costumo dizer que minha mãe deixou o rádio ligado e isso foi o clique que me deu para eu amar a música brasileira.

BH – Lá em Belém.

RG – Lá em Belém do Pará. Sempre fui apaixonado pela música, cheguei a tocar violão, a compor, a cantar.

BH – O que você ouvia no rádio, em Belém?

RG – Ouvia a Rádio Marajoara, rádio Liberal e a rádio Cultura.

Costa Filho, radialista paraense
BH – O programa do Costa Filho?

RG – Hahaha, você também ouvia?

BH – Sou paraense.

RG – Você também é paraense! Hahaha. A gente ouvia o Kzan Lourenço.

BH – Acho que o Costa Filho usava uma música do Ruy Maurity como vinheta. Bananeira Mangará?

RG – Hahaha.

Confusão: Inri de Indaial causando no programa do Eloy Santos,
na extinta TV Guajará, de Belém, em 1982
BH – Você lembra do Eloy Santos, que comandava A Hora e a Vez do Boêmio?

RG – Lembro. Depois ele virou deputado. Mas era uma arrogância....

BH – Uh!

Godinho, poeta em Belém
RG – Pois é. Fui fisgado pelo rádio, fiz teatro, faço poesia. Na área artística, dirigi e produzi vídeos, no teatro fui ator, produtor, fiz música. Com o passar do tempo, a gente vai afunilando as possibilidades. Aquela coisa: o que eu faço melhor? Uma das coisas que apontou o caminho pra mim foi essa pesquisa, que teve início na rádio Cultura, aqui de Brasília. Eu participava como produtor de um projeto chamado Estação Brasil, um programa de duas horas de duração, às segundas-feiras, de 10 à meia-noite. Precisávamos preencher os espaços e criamos – eu e a Adriane Lorenzon, minha parceira na época, que apresentava o programa – diversos blocos, sendo um deles um quadro chamado A Origem da Música. Sempre que um compositor passava por Brasília, a gente perguntava qual a motivação, o que o tinha levado a fazer essa ou aquela canção. A ideia de fazer um livro estava aí. Com três ou quatro entrevistas, eu disse: Adriane, nós vamos ter em dez anos um tesouro nas mãos. Só que o programa saiu do ar, houve mudança de governo. Geralmente quando mudam os governos....

BH – Roriz.


RG – [Governador] Joaquim Roriz. Mudou tudo, mesmo aquelas coisas que estavam dando certo. A rádio Cultura mudou para sertanejo universitário, o [repórter policial Roberto Cavalcanti] Perdigueiro assumiu a emissora. Tudo nada a ver. A rádio perdeu audiência, uma linguagem própria tradicional, e não havia mais espaço para continuarmos. A Adriane foi para um lado, a Rádio Câmara; eu fiquei sem rádio, mas mantive a pesquisa. Em 2006, dez anos depois, eu estava com o tesouro nas mãos, conforme havia profetizado. Procurei a Adriane e disse: está na hora de fazermos aquele livro, tenho mais de 400 entrevistas. Ela disse que estava envolvida com outras coisas e me deu liberdade para tocar o projeto. Levei dois anos para redigir o Então, Foi Assim? – Volume 1, com 80 histórias, que foi lançado em 2008. A pesquisa continuou. Em 2010, nasceu o Volume 2; em 2013, o Volume 3; em 2015, lançamos a trilogia, em embalagem comemorativa. Logicamente, quando comecei, sem ter o livro nas mãos, a dificuldade era maior para conseguir entrevistas com as celebridades [da música]. Já com o Volume 1, eu apresentava o meu trabalho e as pessoas diziam: que legal, vamos à entrevista. Assim foi e a pesquisa foi crescendo. Inicialmente, a pergunta básica era a seguinte: como foi que você fez tal música? Só queria saber isso. Mas vi que a gente poderia fazer um trabalho mais profundo, a partir do levantamento dos processos criativos.

BH – Como assim?

RG – Fui verificando no decorrer da pesquisa que os processos são distintos, são diferentes. Nós, que somos de fora da música, costumamos glamorizar o ato criativo: ah, esse cara quando fez essa música estava inspiradíssimo; ele devia estar olhando o pôr-do-sol numa praia! E às vezes não era nada disso. O cara estava no elevador e aquele barulhinho tan-dan-dan-dan o levou a pensar em melodia com uma variação sobre aquelas notas. Descobri que tem gente que só faz melodia, não faz a letra. Aliás, nem se arrisca a fazer letra, como é o caso do João Donato. E tem gente que não se arrisca a fazer melodia, de jeito e maneira, porque o lance dele é a letra, caso do Sérgio Natureza e do Fausto Nilo. E outros, Fernando Brandt, talvez, que têm parceiros que são melodistas. Aí descobri como funciona o processo criativo. Tem um que é presencial, só serve se for junto. Outro, não. Usa a tecnologia: “Mandei uma fita cassete! ”. Depois, ainda escreveu a letra datilografada. Hoje, pela internet: “Mandei um mp3 pelo whatsapp, o cara ouviu e, às vezes, em vinte minutos devolveu a letra”. Veja, nem conviveram aqueles dois.

BH – Esses processos criativos sofrem alterações na História, influência dos meios?

Jair Amorim e Evaldo Gouveia
RG – Sofrem. A parceria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, por exemplo: [Com a voz em vibrato] “Sentimental eu sou/ Eu sou demais...” ou: “De que é feito, afinal/ esse teu coração...”. Essa parceria só funcionava se fosse presencialmente. O Evaldo Gouveia ficava com o violão no sofá, tocando a melodia; o Jair Amorim começava a fumar, ia à janela, voltava; ia à janela, voltava. De repente, pegava um papel e escrevia.

BH – A espontaneidade conta?

RG – Essa é uma forma. Tem artista que fala que presencialmente é importante. Mas, em um caso específico, determinado fulano um dia mandou uma letra e a música foi feita em cima. Tem os que falam: “Eu nunca botei uma letra em uma melodia, sempre mando a letra e alguém põe a melodia! ”. Cada um tem a sua forma de compor. [A cantora e compositora] Simone Guimarães compõe no caos: a mãe internada na UTI. Ela, na sala de espera, aguardando notícias, e a coisa vem, atropelando aquele momento. E ela tendo que sair anotando, querendo pegar o instrumento e cantarolando.

BH – E as apropriações? Tipo “Canteiros”, do Fagner, que musicou poema de Cecília Meireles? A letra não foi pensada como canção e ganhou outro contorno. O mesmo Fagner que transformou em música, aliás, bela canção, poesia de Florbela Espanca.


RG – Sim, isso acontece. O Celso Adolfo colocou letra em Minueto, de Johann Sebastian Bach. Ficou linda: “Quem viu felicidade/ Completa tudo em si/ Eu ando devagar/ Tento descobrir quanto coisa falta...”. Isso é muito lindo! Ele disse: “Cara, nunca mais faço algo assim. Acho que foi uma interferência. Quando que Bach me falou que eu poderia botar uma letra em uma de suas composições? ” Então você vê como são os processos criativos.

BH – Tem sempre um insight?

RG – Sempre. É o que chamam de inspiração. E tem a transpiração, o cara fica às vezes mais de um mês trabalhando a mesma composição. E tem um Márcio Borges, que disse que nas letras teve a psicografia. “Não estava pensando em nada daquilo e às vezes não reconheço como minha tal letra”. Acha estranho, mas [a letra] é dele. Temos, então, centenas de diferentes processos criativos.

BH – O que nos leva a concluir que cada letra é um caso diferente. É isso que aguça a sua curiosidade?

RG – Aguça demais. Osvaldo Montenegro, por exemplo, se inspira na arte. Ele vai a uma exposição, fica vendo os quadros, se emociona. Quando chega em casa, quer fazer alguma coisa bonita com aquela emoção. É um filme, uma peça de teatro, afinal, ele é multimídia.

BH – Parece que os autores buscam diferentes inspirações. Hoje é um filme, amanhã outra coisa.

RG – Amanhã é uma pessoa andando de bicicleta. Os processos são muito diversificados. Paulinho Moska uma vez disse: “Às vezes a canção vem para nós, quando a gente está indo dormir. Cara, amanhã eu pego isso... E não pega! Ela vai embora, e não volta mais. No dia seguinte, você ouve o Chico César cantando uma música, que parece aquele que veio para você, mas você se descuidou e não pegou”. São mil e uma as explicações do processo criativo.

BH – Você sabe de alguma canção que fale sobre isso?


RG – Nesses termos? “Certas Canções”, de Tunai e Milton Nascimento. O Tunai enviou uma melodia para o Milton colocar uma letra. O Milton ficou trabalhando com aquela melodia, mas um dia, ouvindo rádio, começou a tocar “Ebony and Ivory” (Paul McCartney e Stevie Wonder), cuja letra diz que as teclas brancas e pretas do piano convivem harmoniosamente, por que nós não? O Milton, que foi discriminado, barrado por ser negro, em sua terra, Três Pontas, se condoeu com o que ouviu, daí escreveu: “Certas canções que ouço/ Cabem tão dentro de mim/ Que perguntar carece/ Como não fui eu que fiz? ”. Poxa, esse cara sofreu na pele toda aquela situação.... É isso. Tem composições que são biográficas. O Cartola com as situações dele; o Roberto Carlos tem “Lady Laura”, e “Trauma”, que são autobiográficas. Da mesma forma, que temos letras baseadas naquilo que o outro viveu. Uma história que você ouviu. E tem letras que não querem dizer absolutamente nada.

BH - Tipo?

RG – “O azul de Jezebel/ No céu de Calcutá/ Feliz Constelação/ Reluz no corpo dela/ Ai tricolor calar!”.

BH – Desculpe, mas quem escreveu?


RG – “Zanzibar”, de Armandinho e Fausto Nilo, gravada pela A Cor do Som.

BH – Tem gente que sacaneia o Djavan por causa da letra de “Açaí”.

RG – É. Quando o Armandinho pegou essa letra, falou: “Mas, Fausto. Essa letra quer dizer o quê? ”. O outro: “Não quer dizer nada”. O Armandinho: “Engraçado, quando fiz a música também não estava pensando em nada”.

BH – Falando dos livros, com o quarto volume de Então, Foi Assim? temos agora quantas canções biografadas?

O volume um falava em sucessos, depois mudou
(Foto: Elizabeth Braga)

RG – São 80 [no primeiro volume] mais 62 [no segundo volume], totalizando 142; mais 44 [no terceiro volume], dá 186; e agora mais 40. São 226 canções! Nos livros! Temos o Então, Foi Assim? programa de rádio com muito mais. Nos livros, faço uma seleção de canções que tiveram projeção no Brasil. Não falo em sucesso, pois sigo a máxima: o que é sucesso pra você, não é pra mim. Já fui criticado na tribuna do samba e do choro porque o primeiro livro trazia a epígrafe “Histórias de 80 sucessos da canção brasileira”. Não quis entrar nessa discussão. Agradeci e resolvi adotar outro subtítulo, melhor ainda, “Os bastidores da criação musical brasileira”. Melhorei com a crítica.

BH – Legal. Como premissa do seu trabalho, entrevistar os autores é fundamental, não? Quer dizer, quando isso é possível.

RG – Exatamente. Meu foco principal são as fontes primárias. Eu vou aos compositores. Aqui, no volume quatro, entrevistei praticamente todos os autores de 40 canções. No volume três, conto a história de “Casinha Pequenina”: “Tu não te lembras/ Da casinha pequenina/ Onde o nosso amor nasceu…”. Aqui, conto a história, para poder nomear o autor dessa canção que é tocada em todo o mundo, inclusive em iídiche, em Israel, apesar de ela ser considerada de autoria desconhecida. Mas ela tem um autor chamado Bernardino Belém de Sousa. Nesse caso, pesquisei em outras fontes, como no material do Vicente Sales, pesquisador paraense. A história de “Naquela Mesa” (Sergio Bittencourt) eu escrevi baseado em pesquisas que fiz em relação a Jacob do Bandolim; em pesquisas baseadas no relacionamento entre Jacob, Waldir Azevedo e Luperce Miranda. Pesquisei em livros e depoimentos que estão no Museu da Imagem e do Som e também na biografia de Sérgio Bittencourt, filho de Jacob, escrita por Roberto Oliveira. Veja, na letra é o filho dizendo: “Naquela mesa/ Está faltando ele/ E a saudade dele/ Está doendo em mim”. É muito justo um filho falar isso para um pai, caso esse pai tivesse sido aquele amigo, tão companheiro. Porém, o pai era invejoso, irascível.

Sérgio Bittencourt e Jacob do Bandolim em família
BH – É uma mágoa o que o Sérgio quis expressar?

RG – Não, ele realmente sente a saudade. Ele escreveu tudo aquilo, mas a relação entre eles era terrível. Chegou a um ponto em que, em casa, eles se evitavam. Não almoçavam juntos. Sérgio era jornalista e o pai dizia: “Você vai ser é o jornaleiro da esquina”. Tudo isso foi documentado.

BH – Gonzaguinha e Gonzagão também tiveram relação conturbada, não?

RG – Sim. Quando escrevi essa história, levei isso em consideração. Quando escrevo a biografia [das canções] não passo a mão na cabeça do cara. Jacob era genial, mas era invejoso e irascível. Tolhia as pessoas e engessava o choro. Era muito arrogante. Dizia que quando morresse o choro também iria morrer. O choro está aí cheio de garotos tocando.

BH – Tem o conhecido caso do Cartola, com “O Mundo é Um Moinho”.

RG – Ainda não abordei essa história. Não falei com o Cartola, claro, mas conversei com a biógrafa dele, cuja posição é de que isso é um folclore. Como tenho responsabilidade com o meu trabalho, não vou pegar como fonte essas histórias que rodam na internet.

BH – O que mudou na sua abordagem desde que você iniciou as pesquisas?

RG – A pesquisa cresceu. Eu perguntava só a biografia da canção. Depois ela cresceu para o processo criativo e as relações de parceria. No terceiro volume eu abordei a relação de criação com o divino. Por quê? Quando vou entrevistar uma pessoa, ela fala: “Rapaz, isso é coisa de Deus”.

BH – Atribuem a inspiração a uma intervenção divina?

Luiz Vieira: só um instrumento
RG – Sim, daí passei a acrescentar essa pergunta. [O cantor e compositor] Luiz Vieira foi um que disse: “Isso é coisa de Deus. Não devemos bulir”. Ele é taxativo: não cria nada. Outros dizem: “Cara, eu sou só um instrumento. Eu só captei e trouxe para vocês. Tanto que ela [a canção] se perde, não é mais minha; ela adquire vida própria e ganha o mundo”.

BH – As canções selecionadas são uma lista sua. Coisas que você ouviu, que gosta, que cresceu com elas.

RG – Também. Escrevo histórias que tenham um impacto. Tem gente que diz assim: “Eu estava afinando o meu violão, mas aí fiquei mexendo na afinação, passei a manhã inteira nisso e daí saiu a música”. Isso eu não aproveito nos livros.

BH – Por quê?

RG – Não tem impacto.

BH – Alguma canção em particular lhe trouxe decepção ao saber como foi criada? Você imaginava uma coisa e a realidade era outra. Ou você sempre foi certeiro, na mosca?



RG – A canção “Todo Azul do Mar”: “Foi assim/ Como ver o mar/ A primeira vez/ Que meus olhos/ Se viram no teu olhar…”. A melodia é do Flavio Venturini e a letra do Ronaldo Bastos. O Flavio se inspirou em uma paixão, compôs a melodia e a entregou para o Ronaldo Bastos. Este fez a letra pensando em uma figura por quem ele ficou: ah! Os quatros pneus e o estepe arriados! Só que uma semana depois, ele viu que não era nada daquilo. Sabe quando você faz uma canção para quem não merece?

Pergaminho de cantiga de amigo, do medieval Martin Codax
BH – Uma música linda para quem não merecia, não era especial. Mudando um pouco, gostaria de saber sua opinião sobre o lance de ainda hoje sermos tributários da antiga canção medieval. Em Portugal, Península Ibérica, bem antes do Descobrimento do Brasil, predominavam como forma de canção, a Cantiga de Amigo, a Cantiga de Amor e a Cantiga de Escárnio. Cada uma lidando com seu tema: a primeira, as lamúrias da vida, as queixas em geral dirigidas ao ombro amigo; na segunda, óbvio, a canção de amor apaixonado; e no último caso, a sátira, a crítica da situação política e social. Dizem os historiadores que os trovadores viajavam e nos povoados relatavam os acontecimentos, tipo: o filho do rei casou! Eram os cronistas da época. Essas três formas de canção persistem na canção contemporânea? Os tempos atuais usam a tecnologia, mas as temáticas não parecem as mesmas?

RG – Sim, hoje os temas estão metamorfoseados e acrescente a isso outras formas de canção, como a canção de protesto, e a canção ecológica. Veja que a canção ganha capilaridade quando surgem outras necessidades, outros assuntos que merecem relevância.

BH – É difícil falar de maneira tão genérica, mas lá vai: a canção perdeu força no Brasil?


RG – Não. Nós perdemos foi divulgação. As rádios, por exemplo, deixaram de cumprir o seu papel, o de divulgar a produção musical. Tudo ficou atrelado ao interesse econômico como pano de fundo. Vou citar um exemplo. O [grupo] Boca Livre, em 1977, 1978, lançou um LP homônimo com uma cantiga chamada “Toada”, composta por Claudio Nucci, Zé Renato e Juca Filho: “Vem, morena/ Ouvir essa cantiga…”. Esse som ganhou o Brasil. O Boca Livre vendeu uma enorme quantidade de LPs. Como? Primeiro começou a tocar nas rádios do Rio de Janeiro; São Paulo também quis. Daí passou para uma novela, e foi conquistando o país. O Brasil a conheceu de forma espontânea, pois os programadores acharam linda aquela canção e a queriam para tocar para seus ouvintes. Estes, cada vez mais pediam para ouvir. Hoje, as emissoras de rádio estão nas mãos do poder econômicos, em geral com políticos no comando. Eles apostam em programação altamente comercial, de baixa qualidade. As pessoas dizem: a música brasileira morreu, perdeu qualidade. Não perdeu, não! Ela continua sendo feita por autores maravilhosos. Essas canções não chegam até nós porque as rádios deixaram de cumprir seu papel. Quer transformar uma música em sucesso? Pague o tal do jabá!

BH – Não é de hoje que falam nisso.

RG – Verdade. Desde a época do Chacrinha que essa prática se impõem. As rádios perderam a função. Você faz uma canção linda, mas estando fora desse esquema, ela nunca vai tocar. Ela vai ser publicada no You Tube, no Facebook, ganha uma quantidade xis de visualizações. Ela conseguiu isso, mas não o alcance, a extensão que uma rede de rádios proporciona.

BH – Embora você evite a palavra sucesso, sabemos que isso está condicionado a uma estrutura de mercado que não só amplia a divulgação de uma canção, como às vezes garante muito dinheiro para seus autores, ou detentores dos direitos daquela obra. Nos Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo, a pessoa que consegue emplacar o número um nas paradas, e dependendo do tempo que ali permanece, geralmente enriquece.

RG – Com certeza.

BH – No Brasil, os caminhos da canção são tortos e estamos longe desse patamar? A canção é rentável para os autores daqui?


RG – Guilherme Arantes foi o autor que mais encaixou músicas em telenovelas da Rede Globo.

BH – Mais que o Djavan?

RG – Muito mais. Chegou em um ponto em que ele [Arantes] dependia muito pouco de fazer shows e vender discos para se sustentar. O que chegava nas contas dele, repassados pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o ECAD, era uma coisa formidável. Lulu Santos também passou por isso. Tem gente que com uma canção comprou um apartamento. Imagina o Clodo Ferreira com uma música estourada [nas paradas]? “Um dia vestido/ De saudade viva/ Faz ressuscitar...”. O Fagner gravou “Revelação” e foi uma coisa....

BH – Uau.


RG – O mesmo aconteceu com “Pavão Misterioso”, do Ednardo. Hoje, determinado artista toca bem em uma cidade, mas é ignorado na outra. Não existe mais aquela coisa de uma música começou a ser tocada em um lugar e foi se espalhando, como disse anteriormente. Um cara que toca muito bem lá no Rio, é ignorado aqui. Ellen Oléria toca bastante aqui em Brasília, mas não em outros lugares. Fenômenos locais sempre existiram e sempre existirão. Em Belém, tinha umas músicas que tocavam na [rádio] Marajoara e na [rádio] Liberal, que era só lá em que eu ouvia essas coisas.

BH – Por exemplo?

RG – Ah, um som tipo assim: “Eu vou/ Eu vou... /Lá, lá, láá... /Vou beber um barril de cana/ Da Pedreira ao Guamá”.

BH – Música local? Não conheço. Quem é o autor?

RG – Música local, tocava direto. Não sei de quem é, uma hora ainda vou descobrir.




BH – Lembro que foi em Belém que ouvi pela primeira vez “Nós Dois”, do Celso Adolfo. Foi na rádio Cultura, que também tocava Vitor Ramil e Nei Lisboa. Só a Cultura tocava esses caras.

RG – No volume quatro do Então, Foi Assim? tem mais duas novidades. Eu pergunto aos autores: o que te inspira? Sabe, o cara que mora em Minas, tem as montanhas. O que vive no litoral tem as praias. A pergunta é seca: o que te inspira? Telo Borges disse: “É o amor! É o que te inspira. É pelo amor que a gente está aqui”. Muito bom. Outra pergunta foi: qual o seu diferencial no cenário musical brasileiro? Tem gente que responde de primeira: é isso! Outros ficam sem saber o que dizer, ficam procurando palavras para se achar nesse diferencial.

BH – Seu trabalho já chegou até o rock nacional? Você tem biografia de músicas da Legião Urbana, por exemplo?

RG – Já citei Cazuza. Não cheguei até a Legião, embora tenha lido muitos autores sobre o grupo, sobre o Renato Russo, inclusive a biografia feita pelo Dado Villa-Lobos. Não estive com ele.

BH – Não sei se essa é sua praia.

RG – Não tenho preconceito. Nos livros abordo uma canção de 1896, “Iara”, de Anacleto de Medeiros. O repertório é bem diversificado com músicas de várias épocas. Falo de uma música sertaneja, outra de raiz, uma moda de viola. Aqui no volume quatro, falo de um repente: “Natureza”, de Ivanildo Vila Nova e Xangai. Repito: não tenho preconceito. Na hora em que chegar o rock, vai entrar o rock. Da mesma forma, quando for falar do sertanejo, vai entrar o sertanejo.

BH – Essas coisas atuais passam pelo seu toca-disco? Desculpe a expressão. Me refiro à Anitta, Wesley Safadão, coisas assim.

RG – Hahaha. Algumas coisas não chegam até mim porque sinto que cheguei em um nível de exigência.... Embora como pesquisador, eu tenha essa abertura. Mas não faço o meu dia assim: ah, agora eu vou ouvir Anitta! Prefiro ligar o You Tube e deixar rolar o 14 Bis. Não estou exatamente prestando atenção, vou e faço as coisas, enquanto o som tá rolando no computador. De repente, mudo para o nosso amigo [cantor e compositor paraense] Nilson Chaves. Não vou predeterminado a ouvir um artista tipo Michel Teló.

BH – E quando uma melodia te fisga? Você não está focado nela, mas de repente dá aquele estalo e você sai procurando aquele som. Por acaso, é a Anitta! Isso ocorre com você?

RG – Sim, acontece.

BH – Mas o suficiente para você ver e ouvir qualidades em algo assim?



RG – Não é de hoje que as pessoas, a crítica, costumam rotular. Já abordei coisas consideradas bregas. Dalto é considerado brega. Guilherme Arantes disse que uma época foi considerado cult, depois passou a ser visto como brega. Roupa Nova é considerado brega. Roupa Nova cantando “Sapato Velho” é lindo: “Você lembra, lembra/ Daquele tempo/ Eu tinha estrelas nos olhos…”. De quem é essa? É do Mú Carvalho, Claudio Nucci e Paulinho Tapajós. Paulinho Tapajós que fez “Andança”....

BH – Então você tem as suas favoritas.

RG – Claro. Os mineiros são meus favoritos. Também adoro Gilberto Gil.


BH – As letras suscitam interpretações diferentes, não? Demorei a entender certos significados, como em “Clube da Esquina N°2”, de Lô Borges, Milton Nascimento e Márcio Borges. Acho que queria ver coisas além do que estava escrito. Dúvidas que só foram tiradas depois que li o seu livro.

RG – Alguns compositores falam isso, que cada um interpreta de uma forma.

BH – Mesmo aquelas coisas absurdas, tipo “um abajur cor de carne”?


RG – Hahaha, isso é o Ritchie. “Menina Veneno”!

BH – E essa: “tira essa bermuda que eu quero você sério” [Kid Abelha]. Ops, como?

RG – São figuras, eu diria, até fílmicas. O cara está de bermuda e a outra pessoa quer falar sério com ele: “Tira aí essa bermuda, pô. Vem conversar! Mete uma roupa séria e vem conversar”.

BH – Bem....

RG – Acho que são figuras de linguagem que vão sendo criadas. É muito interessante. Eu sou um apaixonado pela música popular brasileira. Olha, não sei falar nada sobre jazz, nem sobre blues.

BH – Mesmo? Então você é do tipo que só comprava discos de MPB?

RG – Também. Tenho muita música internacional, muitas coisas que ganhei de presente. Já ganhei acervos. Aliás, tenho ali um belo acervo de LPs, que eu não me desfaço. Ainda escuto [vinil].

BH – Li em algum lugar que você se sente aprisionado pela música e pelo trabalho que desenvolve. Que é provável que venha o volume 5, o volume 6, o volume 7, assim por diante.

RG – É o meu trabalho e a minha missão. Meu foco maior é priorizar o trabalho dos compositores, que muitas vezes estão no ostracismo. Você jamais vai lembrar do poeta [e letrista paraense] Ruy Barata. Como é a cara dele, mesmo?

Ruy Barata, na caricatura de J.Bosco

BH – Desculpe, mas eu lembro. Ruy Barata lá no Bar do Parque [em Belém], sentado, passando a mão no cavanhaque branco.


RG – Tá bom. Você lembra porque morou em Belém. Mas Sérgio Natureza, você lembra? Lembra do rostinho dele?

BH – Não.

Fausto Nilo, Fagner e Abel Silva
RG – Lembra da cara do Fausto Nilo?

BH – Também não.

RG – J.C. Costa Netto?

BH – Não. A maioria, não tenho a menor ideia. Como ouvinte, sabia da cara de quem aparecia na capa dos discos. Mas, veja: imagino que seu trabalho preenche uma lacuna, ao mesmo tempo que nos faz pensar: puxa, como faz falta um museu da imagem e do som! Os do Rio e de São Paulo colheram muitos depoimentos de figuras históricas da nossa música. Enfim, muitas coisas permanecem inacessíveis ao público. E adeus memória!

RG – Uma lacuna, não sei. Na verdade, preenche um escaninho, hahaha. Você vê, achei legal o título dado pelo Gabriel de Sá: o biógrafo das canções. Já ouvi dizerem: “Ruy, você não imagina, mas está fazendo um mapeamento dos nossos processos criativos”. Eu pensei: porra, é mesmo! Não tinha pensado. Dá licença, vou adotar isso. Outro disse: “Isso aqui é um trabalho de salvaguarda! ”. E é mesmo!  Quando [a série] tiver 15 volumes.... Lembrei que ano que vem devo lançar o Então, Foi Assim? – Compositores Nordestinos. Ou seja: só com a música dos nordestinos.

BH – Por quê os nordestinos?

RG – Vou fazer mais um produto relacionado. Em 2019, ou mesmo no final de 2018, quero lançar o Então, Foi Assim? – Compositores Mineiros. Vou pegar 50 histórias de compositores mineiros e lançar em um compêndio separado.

BH – Você pode fazer vários recortes com a pesquisa, não é?

RG – Exatamente, mas vou continuar os trabalhos que levam ao volume 5, volume 6, volume 7... até a hora em que ainda estiver por aqui. A coleção realmente vai ser a salvaguarda. No meu próprio site, cujo projeto está em criação, deve ter os áudios das entrevistas que fiz. A ideia é poder acessar um menu, escolher um determinado compositor, tipo Milton Nascimento. Ah, quero conhecer a história de “River Phoenix”, por exemplo. Basta clicar em cima e ouvir o áudio. É um site, que na verdade vai ser o museu do som. Não é da imagem e do som. Vai ser do som. Tenho milhares de músicas contadas nas entrevistas. Nos livros são centenas, o espaço é limitado.

BH – Você baixa música da internet?

RG – Sim.

BH – Acredita que por não comprar mais discos e sim ter outras formas de acesso, incluindo os serviços de streaming, isso muda o modo como as pessoas ouvem música e se interessam pela canção e pelo autor?

RG – Sim. Às vezes, quando leio uma letra, sem ouvir a melodia, fico espantado: “Cara, que letra linda! ”. Quando vou ouvir, fico mais ainda: “Que arranjo, que solo lindo de fagote! Ah, é fulano que toca. E esse violoncelo? Hum, é beltrano”. Pego o encarte, vou ouvindo e vendo os detalhes da ficha técnica. Pra mim, isso é uma curtição!

BH – Qual a ideia principal na biografia de uma canção?


RG – Gosto das histórias que têm impacto. Lembra de “Porto Solidão”?

BH – Jessé?



RG – Jessé é o intérprete. Autores são Zeca Bahia e Ginco. Zeca Bahia contou uma baita história sobre como foi feita, a partir do encontro com Ginco. Está no livro. Na versão do Zeca Bahia, eles estavam conversando no bar sobre as mulheres, ambos recém-casados, cada um elogiando a sua, e tal. Três da manhã resolveram ir embora, mas sem condições de dirigir, bêbados, o primeiro disse: “Tu vais dormir em casa, hoje”. Zeca pegou o carro do Ginco e o levou para sua casa. Quando chegou, tocou a campainha, a mulher de Zeca viu a situação e esculhambou os dois pés-inchados: “Se manda daqui! ”. O cara ficou morrendo de vergonha. Ginco então disse: “Pô, você é que vai dormir na minha casa. Lá, isso não acontece! ”. Pegaram o carro, foram para lá. O Zeca dirigindo. Mas, a mesma coisa aconteceu. Uma dupla desdita! E agora? A solução: “Vamos para o bar! ”. E passaram a noite no bar. Lá, o Ginco puxou a letra da música, dizendo: “Está aqui um poema que fiz”. E o outro: “Pô, mas seis páginas! Letra de música tem que ser uma coisa mais curtinha. Deixa que eu ajusto aqui e tal”. Essa, a versão do Zeca. Daí, fui a São Paulo, entrevistar o Ginco. “Ginco, o Zeca falou isso, assim, assado…”. O Ginco só faltou se mijar de rir. Me disse: “Nunca tive carro. Nunca dirigi! ”.

HAHAHA!

BH – Ai, ai. Só figuras!

RG – Eu conto o que me contam, sem alterar nada. Depois que sai no livro, a fonte talvez diga: “Será que foi isso mesmo? ”. Bem, está registrado.

BH – Já teve interesse em biografar autores?




RG – Já tive. Comecei uma pesquisa sobre o Zé Menezes. Cearense, multi-instrumentista, foi funcionário da Globo durante muitos anos. Ele fez a trilha de abertura d’Os Trapalhões, lembra? “Para-ra-ra-ra-ra-ran-ran....”. Tocou com [os violonistas] Garoto, e Bola Sete. Mas desisti por falta de interesse do biografado. Fui a Fortaleza, mas não deu certo, muita interferência, gastei dinheiro. Deixei pra lá.

BH – Algumas canções parecem enigmáticas, a começar pelo título, certo?


RG – Cito “A Página do Relâmpago Elétrico”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Pensei: “De onde esse cara tirou esse título? ” Muita gente canta, nem sabe o que é. Era um álbum de figurinhas de aviões. Um deles tinha o apelido de Relâmpago Elétrico. A figurinha preferida de um amigo do Ronaldo Bastos era a do Relâmpago Elétrico. Aí, ele marcou o álbum. Colocou um marca-página e ia certinho nela.

BH – Muitos, como eu, passaram batido nessa. Canções nos suscitam a chorar, sorrir. São um antídoto. Olha, imensamente obrigado por essa entrevista.

RG – Não há de que.

Relação das músicas biografadas por Ruy Godinho


Então, Foi Assim? – A origem de 80 sucessos da musica brasileira – Volume 1 (2008)

Feminina (Joyce)
Teletema (Antonio Adolfo/ Tibério Gaspar)
Alma (Sueli Costa/ Abel Silva)
Meu menino (Danilo Caymmi/ Ana Terra)
O filho que eu quero ter (Toquinho/ Vinicius de Moraes)
Carinhoso (Pixinguinha/ Braguinha)
Falsa baiana (Geraldo Pereira)
Aquele abraço (Gilberto Gil)
Iara (Rasga o coração) (Anacleto de Medeiros)
Ternura antiga (J. Ribamar/ Dolores Duran)
Maracangalha (Dorival Caymmi)
Bicho de Sete Cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha)
Amor, meu grande amor (Angela Ro Ro/ Ana Terra)
Coração brasileiro (Celso Adolfo)
O Vira (João Ricardo/ Luhli)
Nó na madeira (João Nogueira/ Eugênio Monteiro)
Lígia (Antonio Carlos Jobim)
Camisa 10 (Hélio Matheus/ Luiz Wagner)
No rancho fundo (Ari Barroso/ Lamartine Babo)
Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues)
Escravo da alegria (Toquinho/ Mutinho)
Sozinho (Peninha)
Brasileirinho (Waldir Azevedo/ Pereira Costa)
Anna Julia (Marcelo Camelo)
Bastante (Zé Luiz Mazziotti/ Sérgio Natureza)
Essa mulher (Joyce/ Ana Terra)
Malandragem (Cazuza/ Roberto Frejat)
Nós Dois (Celso Adolfo)
Luzes da ribalta (Charles Chaplin/ Antonio Almeida/ Braguinha)
Por causa de você (Antonio Carlos Jobim/ Dolores Duran)
Odeon (Ernesto Nazareth/ Vinicius de Moraes)
Copo vazio (Gilberto Gil)
Grito de alerta (Gonzaguinha)
Madureira chorou (Carvalhinho/ Julio Monteiro)
O pato (Jaime Silva/ Neuza Teixeira)
Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio)
Eu queria ser Cassia Eller (Péricles Cavalcanti)
Bandolero (Luhli/ Lucina)
Tem bobo pra tudo/ É problema seu (Manoel Brigadeiro/ J. Correia da Silva)
Sá Marina (Antonio Adolfo/ Tibério Gaspar)
Maringá (Joubert de Carvalho)
Acabou chorare (Moraes Moreira/ Luiz Galvão)
Vingança (Lupicínio Rodrigues)
Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves/ Mário Lago)
Cansei de ilusões (Tito Madi)
Minha namorada (Carlos Lyra/ Vinicius de Moraes)
Madalena (Ivan Lins/ Ronaldo Monteiro de Souza)
Coração de luto (Teixeirinha)
Espinha de bacalhau (Severino Araújo/ Fausto Nilo)
E lá se vão meus anéis (Eduardo Gudin/ Paulo César Pinheiro)
Perigosa (Rita Lee/ Roberto de Carvalho/ Nelson Motta)
Emoldurada (Ivan Lins/ Celso Viáfora)
Zelão (Sérgio Ricardo)
O barquinho (Roberto Menescal/ Ronaldo Bôscoli)
Helena, Juracy, Doralice, Filomena... (Antonio Almeida/ parceiros)
Vera Gata (Caetano Veloso)
Rato, rato (Casemiro Rocha/ Claudino Costa)
Drão (Gilberto Gil)
Meu grito (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
Como dizia o poeta (Toquinho/ Vinicius de Moraes)
Menina da lua (Renato Motha)
Cheiro de mato (Fátima Guedes)
Irmãos coragem (Nonato Buzar/ Paulinho Tapajós)
Coisinha do pai (Almir Guineto/ Jorge Aragão/ Luís Carlos)
Estão voltando as flores (Paulo Soledade)
Taí (Joubert de Carvalho)
Cais (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos)
Botões de Laranjeira (Pedro Caetano)
Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu/ Eurico Barreiros)
Cotidiano N° 2 (Toquinho/ Vinicius de Moraes)
Lugar comum (João Donato/ Gilberto Gil)
O que é que tem (Joel de Almeida/ Pedro Caetano)
Canção da despedida (Geraldo Azevedo/ Geraldo Vandré)
Nova ilusão (Pedro Caetano/ Claudionor Cruz)
Valsinha (Vinicius de Moraes/ Chico Buarque)
Lá vem o Brasil descendo a ladeira (Moraes Moreira/ Pepeu Gomes)
Paroara (Fagner/ Chico Buarque/ Fausto Nilo)
Pauapixuna (Paulo André/ Ruy Barata)
Mistérios (Joyce/ Maurício Maestro)
As rosas não falam (Cartola)


Então, Foi Assim? – Os bastidores da criação musical brasileira – Volume 2

BR-3 (Antonio Adolfo/ Tibério Gaspar)
Você abusou (Antônio Carlos/ Jocafi)
A voz do morto (Caetano Veloso)
Corra e olhe o céu (Cartola/ Dalmo Castelo)
Meu mundo e nada mais (Guilherme Arantes)
Desenho de giz (João Bosco/ Abel Silva)
Coração de estudante (Atualizado) (Wagner Tiso/ Milton Nascimento)
Canção da despedida (Atualizado) (Geraldo Vandré/ Geraldo Azevedo)
Outra vez (Isolda)
Pavão mysteriozo (Ednardo)
Não vou sair (Celso Viáfora)
Tango pra Teresa (Evaldo Gouveia/ Jair Amorim)
Festa do interior (Moraes Moreira/ Abel Silva)
Velho companheiro (Claudio Nucci/ Fernando Gonçalves)
Mulheres (Toninho Geraes)
Alegre menina (Dori Caymmi/ Jorge Amado)
Atrás da porta (Francis Hime/ Chico Buarque)
Alma (Ampliada) (Sueli Costa/ Abel Silva)
Disfarça e chora (Cartola/ Dalmo Castello)
Enquanto engoma a calça (Ednardo/ Climério)
Êta nóis! (Luhli/ Lucina)
Vela no breu (Paulinho da Viola/ Sérgio Natureza)
Eu só quero um xodó (Dominguinhos/ Anastácia)
Arco-íris (Fátima Guedes)
Na rua, na chuva, na fazenda (Hyldon)
Nóis é jeca mais é jóia (Juraildes da Cruz)
Fazenda (Nelson Angelo)
Jardim da fantasia (Paulinho Pedra Azul)
Foi assim (Paulo André/ Ruy Barata)
Os meninos da mangueira (Rildo Hora/ Sérgio Cabral)
O moço velho (Silvio Cesar)
Frisson (Atualizado) (Tunai/ Sergio Natureza)
Feitio de oração (Vadico/ Noel Rosa)
Tocando em frente (Almir Sater/ Renato Teixeira)
A banca do distinto (Billy Blanco)
Noite do prazer (Claudio Zoli/ Paulo Zdan/ Arnaldo Brandão)
Revelação (Clésio/ Clodo)
Flashback (Dalto/ Ralph/ Claudio Rabello)
Sonho meu (D. Ivone Lara/ Délcio Carvalho)
Andança (Edmundo Souto/ Danilo Caymmi/ Paulinho Tapajós)
O sol nascerá (Cartola/ Elton Medeiros)
Um dia, um adeus (Guilherme Arantes)
De volta pro aconchego (Dominguihos/ Nando Cordel)
Meu caro amigo (Francis Hime/ Chico Buarque)
Na sombra de uma árvore (Hyldon)
Canoa canoa (Nelson Angelo/ Fernando Brant)
Pra você (Silvio Cesar)
Pano legal (Billy Blanco)
As aparências enganam (Tunai/ Sérgio Natureza)
Sentimental demais (Evaldo Gouveia/ Jair Amorim)
Brasil (George Israel/ Nilo Romero/ Cazuza)
Severia xique-xique (João Gonçalves/ Genival Lacerda)
A primeira estrela (Luhli/ Lucina/ Sonya Prazeres)
É preciso muito amor (Noca da Portela/ Tião de Miracema)
Sei lá, Mangueira (Paulinho da Viola / Hermínio Bello de Carvalho)
Cebola cortada (Petrucio Maia/ Clodo)
Romaria (Renato Teixeira)
Certas canções (Atualizado) (Tunai/ Milton Nascimento)
Cobras e lagartos (Sueli Costa/ Hermínio Bello de Carvalho)
Coleção (Cassiano/ Paulo Zdanowski)
Mal necessário (Mauro Kwitko)
Rua Ramalhete (Tavito/ Ney Azambuja)


Então, Foi Assim? – Os Bastidores da criação musical brasileira – Volume 3

À primeira vista (Chico César)
Clube da Esquina 2 (Lô Borges/ Milton Nascimento/ Márcio Borges)
Casa no campo (Tavito/ Zé Rodrix)
A casinha pequenina (Bernardino Belém de Souza)
Besta é tu (Moraes Moreira/ Luiz Galvão)
A seta e o alvo (Paulinho Moska/ Nilo Romero)
Amor, meu grande amor (Angela Ro Ro/ Ana Terra)
Boas festas (Assis Valente)
Estampas Eucalol (Hélio Contreiras)
Naquela mesa (Sérgio Bittencourt)
Doce de coco (Jacob do Bandolim/ parceiros)
Deixa a vida me levar (Serginho Meriti)
Fênix (Flávio Venturini/ Jorge Vercilo)
O meu amor chorou (Luiz Marçal/ Sérgio Fiuza)
Cajuína (Caetano Veloso)
Vira virou (Kleiton Ramil)
Gentileza (Gonzaguina/ Marisa Monte/ outros)
Mama África (Chico César)
Ontem ao luar (Pedro de Alcântara/ Catulo da Paixão Cearense)
Eu também quero beijar (Moraes Moreira/ Pepeu Gomes/ Fausto Nilo)
Asa Morena (Zé Caradípia)
Beijo partido (Toninho Horta)
Cara a cara (Luiz Melodia/ Renato Piau)
Besame (Flavio Venturini/ Murilo Antunes)
Esperando aviões (Vander Lee)
Leão ferido (Dalto/ Byafra)
Lua e estrela (Vinicius Cantuária)
Esse filme eu já vi (Luiz Melodia/ Renato Piau)
Nasci para bailar (João Donato/ Paulo André Barata)
Caderno (Mutinho/ Toquinho)
Ai que saudade de ocê (Vital Farias)
Aos filhos dos hippies (Oswaldo Montenegro)
Cabeleira do Zezé (João Roberto Kelly/ Roberto Faissal)
Canção da despedia (Atualizado) (Geraldo Azevedo/ Geraldo Vandré)
Pedra de responsa (Chico César/ Zeca Baleiro)
Da cor brasileira (Joyce/ Ana Terra)
Eu quero ser feliz agora (Oswaldo Montenegro)
Manoel, o audaz (Toninho Horta/ Fernando Brant)
Matança (Augusto Jatobá)
Menino passarinho (Luiz Vieira)
Coisa linda (Vinícius Cantuária)
Saga da Amazônia (Vital Farias)
Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Alceu Valença)
Telegrama (Zeca Baleiro) 

O autor e o volume 4. Foto: Luiz Clementino
Então, Foi Assim? – Os bastidores da criação musical brasileira – Volume 4

Espanhola (Flavio Venturini/ Guarabyra)
Porto solidão (Zeca Bahia/ Ginco)
Frisson (Tunai/ Sérgio Natureza)
Tia Eulália na Xiba (Claudio Jorge/ Nei Lopes)
Engenho de Flores (Josias Sobrinho)
História sem fim (Flavio Henrique/ Dado Prates)
Maria fumaça (Kleiton/ Kledir)
Samba da zona (Joyce)
Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho)
Coração de estudante (Wagner Tiso/ Milton Nascimento)
Saga (Filipe Catto)
Purpurina (Jerônimo Jardim)
Baião de quatro toques (Zé Miguel Wisnik/ Luiz Tatit)
Fênix (Flavio Venturini/ Jorge Vercillo)
Natureza (Ivanildo Vila Nova/ Xangai)
Paciência (Lenine/ Dudu Falcão)
Mazzaropi (Jean Garfunkel/ Paulo Garfunkel)
Para Lennon e McCartney (Lô Borges/ Márcio Borges/ Fernando Brant)
Tropicana (Vicente Barreto/ Alceu Valença)
Cais (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos)
Jura secreta (Sueli Costa/ Abel Silva)
Brincar de viver (Jon Lucien/ Guilherme Arantes)
Crápula (Dante Ozzetti/ Luiz Tatit)
Tempodestino (Nilson Chaves/ Vital Lima)
Senhora liberdade (Wilson Moreira/ Nei Lopes)
Vapor barato (Jards Macalé/ Waly Salomão)
A página do relâmpago elétrico (Beto Guedes/ Ronaldo Bastos)
Paulista (Eduardo Gudin/ J.C. Costa Netto)
Boi da lua (César Teixeira)
Certas canções (Tunai/ Milton Nascimento)
Trem do Pantanal (Geraldo Roca/ Paulo Simões)
Essa mulher (Joyce/ Ana Terra)
Clube da Esquina N° 2 (Lô Borges/ Milton Nascimento/ Márcio Borges)
Zanzibar (Armandinho/ Fausto Nilo)
Tiro cruzado (Nelson Angelo/ Márcio Borges)
Estrela (Vander Lee)
Coisas do Brasil (Guilherme Arantes/ Nelson Motta)
Maria ninguém (Carlos Lyra)
Pavilhão de espelhos (Lula Queiroga)
O trem azul (Lô Borges/ Ronaldo Bastos)


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Pet Shop Boys em Brasília


Melhor falar disso agora, rápido, enquanto ainda está fresco na memória e o manto do silêncio ainda não cobriu a vontade de dizer algo.

Chris Lowe e Neil Tennant: Pet Shop Boys
Pet Shop Boys, a dupla synthpop formada pelos britânicos Neil Tennant e Chris Lowe, passou por Brasília, em 17 de setembro de 2017, a segunda vez em oito anos. Desta vez, aproveitando a presença no festival Rock In Rio 2017, a dupla esticou a permanência em solo brasileiro e dá o rolê por algumas cidades, a capital incluída no roteiro. Nada como ter de volta senhores da canção, especialistas em encanto musical.

Neil

Chris
São essas algumas impressões. Passa o tempo, os rostos e os corpos já não têm mais a jovialidade de antes, no palco e na plateia, com as exceções neste e naquela. Tennant e Lowe, middle aged boys, na verdade, pop kids, estão novamente em cena com entretenimento musical altamente profissional.

Pet Shop Boys, Rock in Rio, 15/09/2017
PSB, RiR, 15/09/2017. Foto: Andy Crookston

Em apresentação levemente diferente daquela vista no Rock In Rio dois dias antes, o PSB retornou com roteiro (setlist, caso você prefira) digno de nota: quatro músicas de Super, álbum mais recente, de 2016: Inner Sanctum, The Pop Kids, Burn e The Dictator Decides, perfeitamente perfiladas com sucessos marcantes que apareceram ao longo da bem sucedida carreira, como Opportunities (Let’s Make Lots of Money) (a primeira do show, dentre as mais conhecidas, forjadas sobretudo nos anos 1980); West End Girls; Love Comes Quickly; It’s a Sin, e Left To My Own Devices.

Neil e Christina, vocalista de apoio
Se esse texto fosse conciso, parava por aqui, porque o som e as imagens dos Pet Shop Boys falam por si só. O público sempre quer as mais legais, os sucessos que grudaram na memória, daí que um show só com inéditas fica difícil nesse tipo de turnê e nem os PSB seriam loucos de fazer tal coisa. Afinal, sabem do impacto de canções como Go West (excelente cover de Village People); New York City Boy; Domino Dancing, e Always On My Mind, matadora versão de clássico de Elvis Presley, que encerrou o show.


Falando das que não foram, Tennant e Lowe desta vez deixaram de fora Suburbia (Top Ten na Inglaterra, em 1986); What Have I Done To Deserve This? (Top Ten, em 1987); Heart (single número um, nas paradas de 1988); So Hard (number 4, em 1990); o medley U2/Frankie Valli/The Four Seasons Where The Streets Have No Name/Can’t Take My Eyes Off You; além de outras igualmente queridas, como Being Boring, e Can You Forgive Her?


Mas não se deve chorar sobre o som derramado e sim aceitar o que foi oferecido, embora tenha-se pago caro pelo ingresso, o que, no fundo, não tem nada a ver com nada. Pet Shop Boys não são saudosistas, como alguns devem pensar e rotular como banda, artistas dos anos 1980, portanto identificados com a época e só.






O que vimos em cena foram artistas modernos, conscientes do tempo, que fazem o uso esmerado da tecnologia eletrônica, sound and vision impactantes. Assim, a música, o som e a cenografia estão em pleno acordo, a serviço do entretenimento do mais alto nível.

PSB early days
Se permitem a divagação, naquele início dos anos 1980, a música pop vivia transformação intensa de padrões proporcionada pela miniaturização de componentes eletrônicos e portabilidade dos sintetizadores e aparatos eletrônicos. Lembram que o Emerson, Lake & Palmer e outros dinos do rock progressivo levavam toneladas de equipamentos nas turnês?



Moog System 35
Sintetizadores analógicos, tipo Moog modulares, pareciam naves espaciais. Pois é. No início da década de 1980, os teclados ficaram portáteis e o espírito punk, que havia detonado o lema Faça Você Mesmo (Do It Yourself) foi aplicado com esperteza pela indústria musical. Os discos começaram a ser gravados em formato digital, dispensaram-se orquestras, as guitarras ficaram limpas de distorção, o timbre sonoro tomou outra dimensão, as baterias eletrônicas se tornaram onipresentes, que o digam todos aqueles que um dia foram chamados de New Wave.


Os Pet Shop Boys são o capítulo seguinte. Em seu tempo, a música pop sintética já não era novidade, mas Neil Tennant e Chris Lowe, como alguns de seus pares da época (Depeche Mode, OMD, Human League, ABC, Gary Numan um pouco antes), uniram a tradição da boa e velha canção britânica com a inovação dos sons eletrônicos. Ganhamos nós, que incorporamos suas canções e as usamos como trilha sonora de momentos marcantes de nossas vidas.

Pet Shop Boys em Brasília, 2009
Pet Shop Boys voltaram à cidade, para lembrar em suas mensagens que as mais simples (mas não por isso pueris ou vulgares) filosofias se aplicam na vida das pessoas comuns: que o amor chega de repente; que juntos seguimos o caminho, mesmo que em ruas sem nome; que não é preciso dirigir o carrão para ir longe; que qualquer um é um New York City boy, na Sétima Avenida com a Broadway; que a paixão cai dia a dia feito dominó....

Se a vida é I love you/ Come outside and feel the morning sun. É esse tipo de filosofia embutida na canção de que tanto precisamos. Thank you Neil and Chris.

Obrigado, Net Live Brasília por algumas fotos.