sexta-feira, 30 de junho de 2017

João Bosco & Hamilton de Holanda - Eu Vou Pro Samba



João Bosco e Hamilton de Holanda mandando ver Linha de Passe. Difícil ficar indiferente ao talento, à sintonia e à sincronia da dupla. A canção de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, por si só, já é algo irresistível, desde que apareceu pela primeira vez no disco Linha de Passe, de 1979.


"Toca de tatu, lingüiça e paio e boi zebu/ Rabada com angu, rabo-de-saia/ Naco de peru, lombo de porco com tutu/ E bolo de fubá, barriga d'água/ Há um diz que tem e no balaio tem também/ Um som bordão bordando o som, dedão, violação".  Esses versos de canto nagô, iorubá e o escambau, parecem uma parlenda, um legítimo trava-língua brasileiro, de fazer a alegria dos fonoaudiólogos que ganham a vida nessas terras.


Mas observem que aparentemente alguém publicou o vídeo em 2008, o que demonstra que não é de hoje que os dois se encontram nos bailes da vida. Pois agora, com o bandolinista em vasta cabeleira, João Bosco e Hamilton de Holanda se encontram em Brasília, para série de shows no teatro da Caixa. Os ingressos do espetáculo intitulado "Eu Vou Pro Samba" estão esgotados, como de costume naquele espaço, mas fica aqui o registro deste raro encontro de talentos, aqui nesta capital.

Os dois afirmando entre cordas que a cultura brasileira é algo sólido, superior, o oposto desses tempos de má brasilidade que nos sufoca, subjuga e humilha. Quanto ao título, um tiro ao alvo: tá feliz ou tá triste? Corre pro samba. Tudo se resolve.


João Bosco, um dos mais queridos e respeitados cantores/compositores da MPB, e Hamilton de Holanda , o reinventor do bandolim, são capa da revista Roteiro Brasilia, edição de junho de 2017. O autor deste blog assina matéria sobre o encontro, sendo destaque a mini-entrevista feita com os músicos. Em Brasília ou qualquer outra latitude, João Bosco e Hamilton de Holanda, juntos ou separados, provas pétreas de que a música é nossa voz mais eloquente.


sábado, 3 de junho de 2017

Arnaldo's Jukebox em Brasília

Louco é quem me diz e não é feliz...



Esqueça, aliás, renove suas convicções a respeito da música. Ou pelo menos de como ela normalmente deve ser mostrada em público, em uma sala de espetáculos, por exemplo.


Com o espírito desarmado e a alma despojada de egoísmo e interesses encare a apresentação do ex-Mutantes Arnaldo Baptista, em raríssima e desde já histórica aparição solo, no teatro da Caixa, em Brasília, dias 2, 3 e 4 de junho de 2017.

É a experiência garantida de que humanos somos e de quão capazes quando o amor e a dignidade norteiam nossas existências. Não importa que a gente viva 5, 20, 70 ou 100 anos. É sempre tempo muito pouco para ser feliz; a eternidade em um momento.

Arnaldo no Teatro da Caixa em Brasília (Foto: Hoana Gonçalves / Facebook)

O que se viu e ouviu na primeira noite da temporada no teatro da Caixa foge à compreensão, o senso comum, de como um artista deve se portar em público. No show Sarau o Benedito?, Arnaldo Baptista instiga a fruição musical, a inteligência e os sentimentos da plateia, de modo que só os assim chamados gênios conseguem fazer.

Arnaldo: Sarau o Benedito?

No palco, apenas ao piano e tendo ao fundo projeções de desenhos de sua autoria, Arnaldo encarna uma personalíssima jukebox, na qual rodam suas canções e de autores alheios, significativamente escolhidos.

Arnaldo Dias Baptista e as canções transfiguradas

O canto engole frases, a voz às vezes fraqueja, os semitons saltam em relevo, as notas parecem trôpegas; o piano, afinal, responde como extensão dos comandos do executante.

Arnaldo é emoção à flor da pele, um menino feliz brincando com a música e com a plateia que o reverencia a todo momento. Suas músicas parecem transfiguradas, assim como suas favoritas dos Mutantes, Bob Dylan, Beatles, Peter, Paul & Mary, The Rolling Stones, Harry Belafonte, Chris Montez, Burt Bacharach, Elton John, Yves Montand. Pouco importa, tudo importa.


Felicidade é a pedra de toque, a chave de tudo. Só de ver essa pessoa assim ganhamos o dia. Uma noite de lágrimas de felicidade.

Eu juro que é melhor/ não ser o normal...


Em tempo: enquanto Arnaldo desconcertava em Brasília, São Paulo via no mesmo dia a premiére de Antinomies I, obra "perdida" de Rogério Duprat, o maestro da Tropicália. Nas projeções em vídeos, no auditório do Ibirapuera, vários desenhos de Arnaldo Baptista.



Agora, felicidade transbordante só mesmo levando para casa a nova edição em vinil 180 gramas do espetacular Loki?, masterpiece de Arnaldo lançada em 1974. Crianças, esse é um dos maiores discos de rock'n'roll de todos os tempos. Detalhe: sem guitarras! 


terça-feira, 23 de maio de 2017

Kraftwerk - Brasília 1967


Don't know who had the idea to mix up Kraftwerk's Expo 2000 with this old film of Brasília. It sounds and it looks great! Those were the first years of occupation of this land. A wonderful time in a wonderful city.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pearls Before Swine e a conexão amazônica

Não lanceis aos cães as coisas santas, 
não atireis aos porcos as vossas pérolas, 
para que não as calquem com os seus pés, e, 
voltando-se contra vós, vos despedacem.

Matheus, 7-6

Give not that which is Holy unto the dogs; 
neither cast ye your PEARLS BEFORE SWINE, 
lest they trample them under their feet, 
and turn ye on, and rend ye.

Matthew, 7-6



A história de hoje aparece no meio das celebrações (se é que há uma) de 50 anos do lançamento do disco One Nation Underground, maravilhosa obra psicodélica da banda norte-americana Pearls Before Swine.

The Beatles - Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band
Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn

The Moody Blues - Days of Future Passed

The Jimi Hendrix Experince - Are You Experienced

The Doors - First Album

Isso, não são apenas os clássicos Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles), e The Piper At The Gates of Dawn (Pink Floyd) que viraram cinquentenários. Neste 2017, completam 50 anos os álbuns Days of Future Passed (The Moody Blues), Are You Experienced (The Jimi Hendrix Experience), e o primeiro The Doors, todos tidos como obras que definiram os anos 1960, e importantes não apenas no âmbito do rock’n’roll, mas no contexto da cultura anglo-saxônica que se espalhou pelo mundo, sendo absorvida e reprocessada das mais diferentes formas, pelas mais diferentes culturas.



Tom Rapp, com o violão, nos anos 1960

Tom Rapp, atualmente
One Nation Underground é um disco obscuro, de uma banda mais obscura ainda, liderada por um cara não menos misterioso, chamado Tom Rapp, nascido em Bottineau (North Dakota), e hoje na casa dos 70 anos.



The Garden of Earthly Delights (Hyeronimus Bosch)

O álbum tem suas qualidades e é um deleite para os ouvintes abertos a uma aventura psicodélica. A capa é um detalhe da estranhíssima pintura O Jardim das Delícias Terrenas, de Hyeronimus Bosch (1450-1516), o mais psicodélico dos grandes mestres da pintura. As canções são estranhas, as letras, enigmáticas; o clima, onírico; com instrumentos que jamais você ouvirá por aí (swine horn, clavioline, sarangi); a voz única de Tom Rapp (anquiloglossia? Língua presa?), muitos detalhes que, combinados, fazem da experiência aural uma imersão em um mundo musical, depois identificado (ou classificado) como folk psicodélico.

Balaklava (1968)

These Things Too (1969)

The Use of Ashes (1970)

Tom Rapp - Journal of The Plague Year (1999)

Quanto a Tom Rapp, sua vida segue razoavelmente bem documentada na web: lançou grandes discos sob a alcunha Pearls Before Swine, largou a carreira musical, formando-se posteriormente em Direito, e lançou o último trabalho como artista solo, em 1999, com uma obra intitulada A Journal of The Plague Year, o qual teve a presença da baixista Naomi Yang e do baterista Damon Krukowski, ambos ex-Galaxy 500 e mais conhecidos como a dupla Damon & Naomi.

Advogado e professor Marco Alexandre Rosário (2017)
A lembrança de que o primeiro Pearls Before Swine faz 50 anos partiu de um conhecido, fã inveterado da banda, atualmente advogado e professor de Direito Penal, chamado Marco Alexandre Rosário.

Adepto da filosofia DIY (Do It Yourself), Marco Alexandre não se conteve em ouvir milhares de vezes o One Nation Underground, a partir dos anos 1980, quando conheceu a obra. Influenciado por toda uma vivência habituada à literatura dos mestres e a ouvir os clássicos, o jazz e o rock, esse cidadão passou a produzir poemas, pinturas e música com o que tinha à mão.


Fundou uma editora (Ogmios), lançou livros e discos, tudo de maneira artesanal. E o mais louco de tudo: de alguma maneira conseguiu atrair a atenção do Tom Rapp, o inventor do Pearls Before Swine.


Em 2001, depois de uma troca de correspondências, Tom Rapp enviou para Marco Alexandre uma fita cassete com a gravação que havia feito para o poema “Lírio”, escrito pelo brasileiro.

Jardim,
eu
ilumino
Com
meu
brilho
O teu
lamento
Eu me chamo
Lírio,
lírio,
lírio,
lírio.


Garden,
I
light up,
With
My
Shine
Your
lament.
My name is
Lily,
Lily,
Lily,
Lily.

Terrastock 5 (2002)

Um dos caras mais misteriosos do rock norte-americano tem esse coração generoso: não pode recitar o poema, esse era o combinado, quando de sua participação no festival Terrastock 5, em Boston (Massachssetts), ao invés disso, mandou a gravação, que ficou conhecida como Lily (Marco’s Song).

O Blog do Hektor conversou com Marco Alexandre e prefere que o próprio diga em suas palavras como tudo se passou.

Blog do Hektor – Primeiro, obrigado por lembrar que faz 50 anos que Tom Rapp entrou em estúdio para gravar o clássico One Nation Underground. O que há de tão especial na música de Tom Rapp/ Pearls Before Swine?

Marco Alexandre Rosário – Em primeiro lugar, acredito que foi a época em que o álbum foi gravado. O ano de 1967 foi um ano mágico, em que a música dita popular alcançou níveis jamais imaginados e jamais igualados. Era a época no Movimento Hippie, do Movimento Underground, da Contracultura, do Psicodelismo. No caso específico do One Nation Underground, o clima do álbum é um tanto medieval, experimental, e muito bonito. Os anos de 1966 e 1967, a começar pelo álbum Rubber Soul, dos Beatles (lançado na Inglaterra em dezembro de 1965), foram anos inigualáveis na música popular. Também é preciso lembrar a participação dos outros membros do grupo no álbum, como a belíssima parceria de Lane Lederer e Roger Crissinger na canção The Surrealist Waltz. Ou na parceria Tom Rapp/ Roger Crissinger, na canção Ballad To An Amber Lady. Havia também a participação de Wayne Harley, o outro membro do grupo. Também cito as canções Another Time e Morning Song, todas de Rapp. One Nation Underground causou alvoroço nas comunidades hippies de San Francisco, quando foi lançado, porque os cabeludos achavam que era um projeto secreto de Bob Dylan com os Beatles. Hahaha.  Estavam chapados de LSD.

BH – Sei que o seu interesse por Tom Rapp/ Pearls Before Swine tem uns 30 anos, quando nos conhecemos em Belém (Pará).

MAR – Exato. Foi o jornalista Heitor Menezes que me mostrou o álbum, em 1983, o álbum que mudou minha vida para sempre. O álbum era da época do lançamento, em 1967. Fiquei completamente extasiado por aquela música maravilhosa, experimental e bela.


BH – Depois da carta endereçada ao grupo, que acabou não sendo respondida, você continuou interessado em saber mais sobre Tom Rapp/ Pearls Before Swine? Isto é, conseguiu ouvir os discos subsequentes? Balaklava (1968), These Things Too (1969) e The Use of Ashes (1970), por exemplo.

Marco Alexandre Rosário, músico

MAR – Eu conheci o PBS em 1983. Em 1984, inspirado no grupo e na gravadora ESP-DISK, comecei a criar um projeto artístico que ficaria conhecido como Editora Ogmios (Seaculum Obscurum) / Gravadora Arte Degenerada. Quando fiz o primeiro livro-música (um livro artesanal com uma fita cassete, em março de 1986), resolvi entrar em contato com Tom Rapp. Havia um endereço na contracapa do álbum One Nation Underground, que era o endereço da gravadora ESP-DISK em Nova Iorque. Então, enviei, provavelmente em junho de 1986, uma carta para Tom Rapp, para o endereço que estava no álbum, em Nova Iorque. Obviamente, a carta foi até Nova Iorque e voltou para Belém do Pará, porque eu a enviei 19 anos depois do lançamento do álbum. Não havia ninguém mais morando lá. Posteriormente, já na década de 1990, conheci o segundo álbum, Balaklava, de 1968, através do CD que um amigo meu, Douglas Dias, havia comprado. Já no século XXI conheci os outros álbuns. O próprio Tom Rapp me deu de presente um CD do seu último álbum solo, de 1999, A Journal Of The Plague Year, para o qual o jornal americano The New York Times fez uma imensa reportagem como título “Músico, Advogado e Músico Outra Vez”.

BH – Como e quando você contatou Tom Rapp? Mandou um email? Do que tratava a correspondência entre vocês?

MAR – Falei com Tom Rapp pela primeira vez em 2001. Era a primeira vez que eu tinha contato com a Internet. Criaram um e-mail para mim. Comecei a mexer na Internet, buscando informações sobre o Pearls Before Swine. Vi um site imenso e, de repente, apareceu um link que dizia para enviar uma mensagem para Tom Rapp, por e-mail. Enviei a mensagem em português e ele respondeu em inglês, me chamando de Mr. Rosário. Foi o primeiro e-mail que eu enviei na minha vida. Eu falei na mensagem por e-mail as mesmas coisas que havia falado na carta de 1986. Depois repeti tudo em inglês por e-mail, já que ele só fala em inglês.

BH – Alguma vez ele manifestou interesse em vir ao Brasil?

MAR – Sim, mas ele disse que no momento não poderia vir. Isso foi em 2001, logo que entrei em contato com ele. Agora, dificilmente ele viria.

BH – E como ele veio a pôr música e gravou um poema que você escreveu?


MAR – Depois do primeiro contato, ficamos bastante próximos. Então, ele me disse que iria fazer uma apresentação no Terrastock, um festival de música folk, ambientalista e tudo mais, em Boston. Típico da esquerda americana. Então, eu pedi a ele que ele recitasse um poema de minha autoria no Festival. Ele disse que sim, e eu enviei a ele o poema “Lírio”, que eu havia escrito em 1985 para o livro “As Flores”, traduzido em inglês por um programa de computador. Um tempo depois, quando ele voltou do Festival, ele me disse que não pôde recitar o poema por motivo de horário e pela desorganização do Festival. Então, ele disse que iria fazer melhor, que iria fazer uma música para o meu poema. Assim, em novembro de 2002, ele me enviou uma fita cassete com a música Lily/Marco’s Song (Lírio/Canção do Marco), em que ele cantava e tocava gaita, juntamente com a apresentação em Boston. Posteriormente, quando eu já morava em Santarém (Pará), acrescentei um piano à gravação, dando à música o título de Lily (Overture) e a coloquei no livro-música Winona e as Cadeiras de Rodas, publicando isso no site da Editora Ogmios, em 2005. Em 2016 fiz um vídeo da música e o coloquei na minha conta no YouTube. Mas, havia um outro projeto, envolvendo Tom Rapp e a cantora americana Meredith Monk. Eu propus a eles que fizéssemos um grande livro de poesia, denominado Letters To Americas (Cartas às Américas). Eles toparam fazer o projeto, mas eu acabei ficando sem tempo para iniciar o trabalho. Seria um longo poema com trechos em espanhol, inglês, português (as três principais línguas das Américas) e idiomas indígenas e dialetos da população negra nas Américas. Infelizmente, não consegui realizar tal trabalho, mas eles ficaram muito interessados.

BH – Ainda tem contato com ele?

MAR – Sim, mas no dia do aniversário dele, quando Tom Rapp completou 70 anos de idade, agora em março de 2017, ele não me enviou resposta. Enviei e-mail para ele agora em maio, por ocasião dos 50 anos do One Nation Underground, mas até agora ele não respondeu. Em 15 anos de amizade foi a primeira vez que isso aconteceu. Talvez ele esteja com algum problema.

BH – Tal qual Tom Rapp, você tem formação em Direito. Hoje mais do que nunca o mundo precisa de defensores do direito. Acredita que a evolução social, isto é, a paz social só é possível judicializando a vida? Ou seja: qualquer coisa, acione a Justiça. E pague um advogado.

MAR – É verdade, sou advogado, como Tom Rapp, e professor de Direito Processual Penal e Direito Penal, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), em Marabá (PA). Tom Rapp abandonou a música em 1976, voltando a estudar e se formando em Advocacia, nos Estados Unidos. O Direito existe para orientar a vida em sociedade. Assim, torna-se necessária a atuação do Direito em qualquer sociedade. Mas o Direito não é um fim em si mesmo. O objetivo maior é a felicidade e o progresso do ser humano a quem o Direito visa proteger e dar garantias sociais, econômicas e culturais.

BH – Sei do seu interesse pelo rock e a cultura dita alternativa. De que maneira esse tipo de coisa influencia sua vida, seu trabalho?

MAR – Eu parei de fazer música, poesia e pintura em 2008. Mas a Editora Ogmios continuou existindo, através dos sites (além do site acima mencionado, temos o www.seaculumobscurum.net, em português), do Youtube, do Facebook e do blog. Em 2015 fiz duas apresentações na UNIFESSPA em comemoração aos 30 anos da Editora Ogmios (1984-2014). Sei que a Editora Ogmios influenciou garotos e garotas mundo afora por causa dos sites. Acho isso bom, mas não existe mais uma coisa chamada movimento underground, contracultura, psicodelismo, tendo em vista que a época é outra. Mas, acredito que novas ideias parecidas estejam a caminho, porque há muitos jovens que desejam fazer coisas novas.

Submarino construído por narcotraficantes, apreendido em 2015
BH – Sei que você fez de sua dissertação de Mestrado um estudo sobre o tráfico de drogas na região amazônica. E sei também que neste você dedicou um capítulo inteiro ao pensamento de que, para além dos efeitos danosos e violentos que o tráfico traz ao mundo, as drogas, principalmente as psicotrópicas, estão intrinsecamente ligadas à civilização. O que é fato, o que é mito e o que é hipocrisia nessa história?

MAR – O Homem sempre usou drogas e sempre as usará. Porque as drogas causam esta sensação diferenciada da realidade cotidiana. Há drogas perigosas, como o álcool, e drogas com um grau menor de destruição, como a maconha (cientificamente comprovado). Mas, todas fazem mal à saúde. O que sempre achei é que há muita gente falando tolices, tanto contra como a favor, e que deveriam procurar pesquisar sobre o assunto para não causar preconceitos e nem incentivar o uso e o tráfico de drogas. Essa é uma questão muito séria e grave da civilização atual. Com relação às artes, principalmente em relação à música, sempre houve a influências das drogas nesse meio, seja o LSD do hippie dos anos 60, seja a cervejinha do sertanejo ou do pagodeiro atualmente.

BH – Sendo assim, ergamos uma taça de vinho a Tom Rapp, e a você, amigo, por bem representar o espírito da coisa.

MAR – Pode acrescentar que é uma honra ter tido um poema escrito por mim e musicado pelo Tom Rapp, já que ele fez o mesmo com poemas de escritores famosos, como é o caso de poeta irlandês William Butler Yeats (poema Silver Apples, lançado no álbum solo de 1999, A Journal Of The Plague Year). Além das canções Translucent Carriages, que parece que é um poema de Heródoto, o grego (creditada a Herodotus/Harley/Rapp, no álbum Balaklava), e Ring Thung (creditada a Tolkien/Rapp, do Balaklava também).

Tom Rapp, yesterday and today

sábado, 22 de abril de 2017

Poesia no 57° aniversário de Brasília

Mas sobretudo você é culpada, Brasília. No entanto, eu te desculpo. 
Não tens culpa de ser tão bela e patética e pungente e doida.

Clarice Lispector 

Eterna alvorada em Brasília
Nos 57 anos de Brasília, comemorados em 21 de abril de 2017, uma homenagem. Muitos escreveram sobre Brasília. Desde quando esta terra ainda era colônia de Portugal e já se imaginava uma capital no coração do Brasil. Muitos ilustres e anônimos, poetas, domadores da palavra e de coração ressentido.

Elizabeth Bishop, André Malraux, Sophia de Mello Breyner, Manuel Bandeira, João Cabral, Drummond, Cassiano Nunes, Paulo Bertran, Clarice Lispector, uma lista formidável de autores destilando em verso, prosa e sentimento de barro vermelho a essência da cidade inventada por Lúcio Costa. Em síntese, é do espírito brasileiro que estão falando.

Raimundo Nonato Silva
Ao jornalista, padre casado, advogado e homem de Letras Raimundo Nonato Silva (1918-2014), maranhense de Barra do Corda, devemos a primeira iniciativa de compilar a poética brasiliense quando a urbe ainda era canteiro de obras.




Editor da revista “Brasília”, publicada pela Novacap, como espécie de prestação de contas do passo-a-passo que fazia brotar a cidade no meio do Cerrado, Nonato Silva (também poeta e professor), muitos anos depois, em 2012, reuniu os primórdios de tudo na obra “Poetas da Construção de Brasília – Origem da Literatura Brasiliense”.


Neste aparecem as poesias publicadas na revista “Brasília”, bem como “poesias não publicadas na revista Brasília”, mas elaboradas naqueles primeiros anos, a saber, entre o final dos anos 1950 e início da década de 1960.

Dentre odes e loas de todo tipo, muitas de carregado verniz ufanista e de valor mais histórico que poético, reproduz-se aqui uma gema (parte das "poesias não publicadas") que bem traduz o sentimento de quem muda para a capital do Brasil.

Hoje, óbvio, as distâncias são vencidas pela tecnologia e estar conectado é maneira de se sentir menos só. Mas naquele início, sair de sua cidade-natal ou adotiva e aportar em Brasília não era para qualquer um. Para estes, uma alvorada que se abria no peito; para aqueles, um trauma de difícil superação.

Mudar não é só locomover o corpo para lugar distante. Mudar é pôr em movimento o coração e a mente. Igual pensar e filosofar. Dói. Não é para qualquer um.


MUDANÇA

José Maria Cerqueira

Um dia, acordarás, com a família
dessorado de praia e de cais,
encravando no peito de Goiás
o coração marmóreo de Brasília.

Um dia, acordarás, sem a família
com medo dos castelos muito iguais,
em meio às solicitudes funcionais
com o mesmo destino da mobília.

Desiodado, uma noite, já sem nome,
e apocalipsado pela fome
de querência, de anímicas raízes,
irrigarás marinhas pelo asfalto
para que o panorama do planalto
assimile teu sal e teus matizes.

Rio, 31.1.60

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Jorge Antônio, médico sem fronteiras espirituais

Parte Dois - O espírito em movimento

É por isso que se pode ser metafísico sem ser geômetra. A metafísica é mais divertida; é muitas vezes o romance do espírito. Na geometria, ao contrário, é preciso calcular, medir. É uma dificuldade contínua e muitos espíritos preferiram sonhar docemente que se fatigar.

Voltaire





Na fina ironia dos cartunistas a visão de Deus segundo a vontade humana. Aliás, para tirar essa dúvida eterna sobre a existência de Deus, Ser Superior, coisa que o valha, baste ter fé, como dizem os religiosos, ou encontrando um alienígena evoluído, para lhe dizer o seguinte: olha, lá na Terra a humanidade acredita em Deus, etc. De lá de onde você vem Deus existe? Em caso de resposta positiva, estamos falando da mesma coisa? Aliás, raciocinamos da mesma maneira? O que é mais plausível?

Mais cedo ou mais tarde este blog acabaria tratando desses assuntos, se é que já não abordou de diferentes maneiras tema tão difícil. Quanto ao alienígena, talvez não seja preciso encontrar um da maneira que idealizamos. A resposta está lá fora, mas também aqui se encontra – quem sabe – em uma dimensão a qual vislumbramos em sonho, fantasia e meditação.

Dr. Jorge Antonio da Silva
Na segunda parte da entrevista com o médico ortopedista Jorge Antônio da Silva, o enfoque muda da ciência do corpo para a ciência do espírito, admitindo-se que existe algo dessa natureza. O doutor Jorge Antônio define-se como espírita ou ao menos afirma professar essa doutrina, fundada pelo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, Allan Kardec, em 1857, a partir da publicação de uma obra intitulada O Livro dos Espíritos.

Esculápio (Asclépio), deus da medicina
Blog do Hektor – Dr. Jorge, nossa conversa teve um preâmbulo, no qual discorremos sobre certos caminhos tomados pela medicina, incluindo a ortopedia, especialidade que o senhor escolheu seguir. Grosso modo, falamos da saúde física e da saúde mental – se é possível dissociá-las. Falemos agora, na falta de termo que melhor defina, da saúde espiritual. Por lidar com gente, o médico não deveria estar atento, isto é, não deveria fazer parte de sua formação essa visão holística, que dá conta do físico, do mental e do espiritual? Não são assim os discursos de formatura de médicos, quando renovam os protestos de cuidados para com os enfermos e necessitados?

JAS – Reclamamos do político corrupto, mas ignoramos que o político sai do meio de nós. Se a sociedade não tem educação – e não estamos falando em curso superior, doutorado ou pós-doutorado, nada a ver com isso. As pessoas mais educadas que conheço não têm nível superior, e as mais mal-educadas, mais arrogantes são justamente os meus pares, pessoas do campo da Medicina, da Advocacia....

BH – E?

JAS – Sócrates disse: “Conhece a ti mesmo”. E se você emendar com o que Cristo falou, em citação descrita por Matheus, na qual, após (Jesus) calar a boca dos saduceus, um fariseu, para provoca-lo, perguntou: “Mestre, qual o maior dos Mandamentos? ”. Disse o Cristo: “O que está na lei, a Lei de Moisés. Amar a Deus sobre todas as coisas”. E acrescentou mais um: amar ao próximo como a ti mesmo, pois nisso está contido todas as leis. Observe: não matar, não roubar, não desejar a esposa do próximo, não desejar as coisas do próximo, não dar falso testemunho, tudo isso é amar ao próximo. Nisso está contido todas as leis. Não são só as leis morais, mas também as leis físicas.

BH – Pode explicar melhor?

JAS – [Deixando um guardanapo cair] Isso aqui é a lei da gravidade, que atribuímos a Isaac Newton. Ocorre que isso existe desde sempre, Newton apenas evidenciou. Ele que mandou Newton revelar para a gente. Todas as leis, todos os profetas, tudo o que vai acontecer está resumido nisso, amar ao Criador sobre todas as coisas e aos nossos pares. Eu ainda diria mais, tudo isso aqui é par nosso. Os átomos que formam as moléculas, quando me sepultarem eles darão adubo a outros seres, uma planta, tudo. Todos são nossos irmãos, a cerâmica, o silício, o suco de laranja. Tudo. Isso tudo tem que ser usado para o bem, ao invés de toda a energia ser usada para a violência, para fazer o mal.

BH – Esse parece ser um pensamento bastante cristão. O senhor há de convir que temos nesse meio a humanidade em uma situação social e cultural geradora de conflitos, isto é, a desavença provocada pela disputa entre as pessoas. Relações de poder, entre muitas variáveis. Vejamos o homem como ser social, no qual, se me permite a concepção marxista, temos a exploração de um pelo outro, eterna luta de classes, que acaba desembocando nesse quadro de violência.

Socrates, por Michelangelo Merisi da Caravaggio
JAS – Quando Sócrates disse: “Conhece a ti mesmo”, ele lançou um pensamento tão profundo; isso significa reconhecer a Paternidade Divina e a fraternidade não apenas aqui de Brasília, do Brasil, da Terra, mas de todo o Cosmos. A fraternidade universal.

BH – Pode explicar com mais detalhes?

Rosto de Jesus Cristo no Santo Sudário
JAS – Existem muitos colaboradores. Jesus é o maior colaborador do Nosso Pai, tanto que Ele apareceu há 5 bilhões de anos, quando foi designado. Ele já era Perfeito, já era Anjo. Nossa destinação, sem exceção, é a angelitude, só para adiantar. Mas Jesus, há 5 bilhões de anos, - e a ciência mostra que a Terra fez parte de uma nebulosa que há 5 bilhões de anos entrou em processo de resfriamento. Pois há 4,5 bilhões de anos, Jesus começou a moldá-la, para torna-la o que ela era até uns 200 anos atrás, considerando que de lá pra cá nós a degradamos bastante.

BH – De onde o senhor tirou essas evidências?

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
JAS – Informações do campo espiritual. Um exemplo. Em 1862, publicado em uma revista espírita, Allan Kardec interrogou um médium, perguntando de onde teria vindo Mozart. Mozart viveu no século XVIII e morreu cedo com 38 anos. Nunca vi ninguém com uma produção tão vasta, que hoje você pode compilar em 170 CDs. Nem Bach chegou a tanto.

BH – Desculpe, fiquei confuso.

JAS – Informações do campo espiritual. Pela ciência dos homens, temos as eras geológicas, o período primitivo, o período intermediário, o secundário, o terciário, o de transição, e o atual. Seis eras geológicas, definidas nos primórdios da Geologia, no século XIX, período de Kardec; cada uma dessas eras tem analogia com os dias da criação contidos na Bíblia. Não é um dia, são eras. Para Deus, um instante. Ele é eterno em todas as direções; para Ele tudo é presente. Não se pode dizer que a Bíblia está errada, pois ali está uma linguagem alegórica, uma linguagem oculta. Veja, para explicar coisas como essas para uma criança, um adolescente, pessoas de menos alcance, é utilizada essa linguagem. Depois que você começa a estudar a ciência, esse pensamento é inconcebível. A ciência segue desbravando o conhecimento, a geologia, a astronomia, toda a mudança de concepções a respeito da posição da Terra no universo: no centro, não está o sol, como disse Galileu; muito menos o nosso planeta, como disse Ptolomeu. Quem sabe onde é o centro? O sol é estrela de quinta grandeza; temos imenso número de estrelas muito maiores que o sol. Bilhões de estrelas na Via Galáxia. Milhões de galáxias. Cada estrela carregando dez, vinte planetas. Imagine quantos orbes nós não temos.

BH – Um mistério.

JAS – Mistério relativo.

BH – Como assim?

JAS – Porque temos essas informações do campo espiritual. Voltando a Mozart, depois que ele morreu, veio a pergunta: de onde ele veio? De Júpiter.

Jupiter e a lua Ganimed
BH – Júpiter, o maior planeta do sistema solar?

JAS – Ele teve vivências, existências em Júpiter. Nós vamos chegar lá um dia também. Seguindo o raciocínio, e se nós, seres humanos, fossemos para lá? Como ficaríamos? Mais ou menos como são os primatas.

BH – Por favor, explique.

JAS – Não consideramos o macaco atrasado? Chegaríamos lá em uma condição similar a essa. Como se fôssemos os primatas deles.

BH – Quando se fala em vivência em Júpiter, estamos falando de que condições?

JAS – Não essa vivência que estamos vendo aqui, com mesa, garfos, colheres; a gravidade do ar é diferente. Aqui é de 9,8 m/seg². Lá é 27 m/seg², segundo os dados da ciência.

BH – O senhor quer dizer que existe uma condição de vida em Júpiter.

JAS – Não nesse estado material que vemos aqui. Em verdade, nem matéria existe. Einstein provou. Em nenhum lugar existe matéria. Repare. O que é o átomo? Antes de Cristo, Demócrito e Leucipo disseram isso. Divida essa xícara em fragmentos cada vez menores, vai restar um átomo.

BH – Sabemos hoje que os átomos são divisíveis.
Ernest Rutherford e Niels Bohr
JAS – Essa concepção vem desde antes de Cristo. Quando chegou em 1808, enquanto D. João VI estava vindo para o Brasil, John Dalton, na Inglaterra, publica um trabalho que reuniu os conhecimentos de química daquela época: a teoria atômica de John Dalton. Ele continua com a mesma ideia, de que o átomo eram bolinhas indivisíveis. Porém, no final do século XIX, depois que a radiação foi descoberta por Röntgen, e que deu origem ao raio-x, veio o aprimoramento dos estudos. Quando apareceram as primeiras máquinas de raio-x, surgiram os primeiros diagnósticos de fraturas nos seres humanos. Nessa caminhada muitos médicos morreram, pois contraíram câncer pela exposição contínua aos raios-x. Foi quando viram que era preciso haver uma proteção com chumbo, pois a radiação era perigosa. Continuando, Rutherford e Bohr fizeram experiências com placas metálicas, e viram que a radiação atravessava essas barreiras. Resumindo, a radiação atravessa, porque a matéria é oca. Os átomos não eram indivisíveis. A radiação passa por dentro dos átomos. Temos toda uma gama de radiação desde sempre. A isso chamamos espectro eletromagnético. A faixa restrita que vemos se chama espectro luminoso. Não vemos abaixo do infravermelho e nem acima do ultravioleta. Temos quantias imensas de radiação. Temos as micro-ondas do celular, da televisão, de rádios, ondas de várias naturezas. Já viu quantas cores tem em uma loja de tintas?

BH – Uma paleta enorme de opções.

JAS – Você tem uma quantidade infinita de cores. Entre o número 1 e o número 2, temos quantos números? Infinitos entre um número inteiro e outro. Do mesmo modo, o infinito não existe só no plano cartesiano, horizontal. Menos infinito, mais infinito. Entre um e outro, também existe o infinito.

BH – Como o senhor concilia essa visão científica com a visão espiritual das coisas?

JAS – Essa é a pergunta mais importante que me já foi feita. Nunca atentei para isso. Observe, o evangelho de Jesus – que ainda vai fazer 2 mil anos, em 2033, ou em 2039 – não foi compreendido, quando ele veio, pelo melhor povo da face da Terra.

BH – Como assim melhor povo?

Jesus Cristo, segundo a arte bizantina
JAS – Na época, já tínhamos as civilizações egípcia e grega, e outras que conhecemos do mundo antigo, os fenícios, os babilônios, os essênios. Acrescentaria os incas, os silvícolas brasileiros. Todos acreditavam em seres superiores, mas vários deuses. O deus da chuva, o deus do trovão, o deus da safra. O império romano também pensava assim, o maior de todos era Júpiter, não à toa, foi assim batizado o maior planeta do sistema solar. Os gregos tinham seus deuses, idem os egípcios. O povo hebreu, nas escrituras sagradas, era o povo escolhido por Deus. Jesus levou mil anos para regredir sua grandeza e poder se igualar à nossa. Mil anos o processo. Daí ele escolhe encarnar em um lugar onde se cultiva a crença no Deus único, conforme a tradição, desde Abraão. Ele nasceu lá, deu exemplo de pobreza, nasceu em uma manjedoura, um cocho de animais.

BH – Com todo o respeito, por muito pouco uma vaca não lambeu o menino Jesus.

JAS – E as pessoas ainda dizem: ah, eu sou pobre. Se olhassem para a história do Rei Solar. Ele que foi escolhido pelo Pai, para cuidar da Terra, pois desde a época do resfriamento Ele já era perfeito e disse: vou ali, para dar exemplo com a minha vida, na prática, para que as pessoas sigam o caminho mais breve para chegar à Perfeição. Entendeu? Um convite à Perfeição, a qual todos nós estamos destinados. A única fatalidade que temos é a Perfeição.

BH – Por favor, explique melhor.

JAS – Tem uma mensagem de Joana de Angelis, espírito, que foi Clara de Assis, na época de Francisco de Assis. Ela já era um espírito elevado e agora está encarnada no Brasil.

BH – Clara de Assis agora está por aqui?


JAS – Já tem uns cinco anos que ela encarnou. Ela agora é Joana de Angelis, espírito que já ditou vários livros para o (médium) Divaldo Franco. A mensagem se chama “Filho de Deus”. Diz assim: “Muitos tentaram definir Deus. Filósofos e cientistas. Mas nenhum logrou o êxito que Jesus atingiu, chamando de Pai”. Até então ninguém tinha chamado Deus de Pai. Era Alá, Jeová, Deus, Tupã. A mensagem diz que esse designativo excelente reúne todos os termos e nomes. Mais adiante, a mensagem diz assim: “Tens uma fatalidade que te aguarda: a plenitude da vida. Lográ-la de imediato ou mais tarde depende do teu livre arbítrio. Empenha-te”. Essa mensagem é lindíssima.

BH – Voltando à pergunta, como se juntam as visões da ciência e do espírito?

JAS – Quando Jesus veio e preparou tudo isso, os cataclismos que foram necessários para as transformações, o acúmulo de camadas minerais, incluindo a mais superficial destinada ao povoamento dos seres, as plantas e os animais, o equilíbrio com as bactérias e os insetos, além das leis cósmicas regendo; depois ele mandou espíritos mais experimentados que vieram de outros orbes, qual Mozart que veio de Júpiter, para nos mostrar a música feita naquele nível. Vieram Newton, os renascentistas, espíritos que vieram de outras estrelas, os capelinos.

BH - Capelinos?

Estrela Capela, na Constelação do Cocheiro
JAS – Sim, de Capela, da constelação do Cocheiro. Então, tivemos essa transmigração de espíritos. Veja, no mundo material que vemos, bem aqui temos outro mundo que não percebemos. O ar permeia tudo que temos aqui. Onde a ciência diz que tem vácuo, não é vácuo. Tudo é preenchido e tudo é perfeito. Aqui mesmo, neste ambiente, temos ar e uma imensidão de ondas eletromagnéticas. Cristo de vez em quando nos manda um Max Plank, um (James Clerk) Maxwell, figuras que descobriram o hertz, a vibração sonora e luminosa, e mais recentemente, no átomo de silício, na areia, é possível fazer pequenos chips para armazenar coisas e transmitir. Quem fez essas coisas? Foi o acaso? Para todo efeito existe uma causa. Se não foi o homem quem fez, quem pode ter sido? Jesus, quando veio, exemplificou em pessoa o amor universal. Só que ninguém entendeu, nem mesmo os apóstolos. Judas se enganou: ele achava que o povo hebreu – o povo escolhido – era escravizado pelos romanos, pensando que haveria revolta, com a entrega de Cristo, pois sabia que os judeus aguardavam por um Rei, um Deus que chegaria e massacraria os outros. Eu pergunto: que Deus é esse? Onde está o amor universal?

BH – Espere um instante. O senhor está partindo da premissa de que Jesus surgiu em algum momento após o Big Bang.

JAS – Não. O Big Bang pode ser um evento do Cosmos. Digamos que houve milhões de Big Bangs. Para fechar o raciocínio, quando Jesus veio, não foi compreendido. Na hora de sua prisão, o que Pedro, seu grande amigo, fez? Puxou a espada e arrancou a orelha do soldado. Jesus o que fez? Restituiu a orelha do soldado. Até hoje nem a nossa medicina avançada faz isso. E na crucificação? Para ver se Jesus estava morto na cruz, um soldado, Cassius Longinus, que evoluiu e evoluiu até chegar a Dom Pedro II, no Brasil, transpassou a lança no corpo do Cristo.

Longinus, a lança e Jesus, segundo Fra Angelico (circa 1400)
BH – O centurião que enfiou a lança em Cristo reencarnou como Dom Pedro II?

JAS – Quando Jesus veio, não foi compreendido sequer pelos seus irmãos. Eles o tinham como louco, porque fugia do padrão normal.

BH – Bem, já que fala em Jesus Cristo, ressurreição, há tantos mistérios milenares. Pode opinar sobre a ida dele ao deserto? É uma dentre tantas passagens estranhas nas escrituras sagradas.

JAS – Seu precursor e primo, João Batista, também pregava no deserto. Quando Jesus prega no deserto, ele está pregando para os espíritos. Nós estamos sendo acompanhados e temos testemunhas que você não vê. Tem muito mais gente aqui, em estado espiritual, do que a quantidade de pessoas que você está vendo neste ambiente. Se você pensar o mal, vai atrair aquelas consciências mais atrasadas. Você pensa o bem e atrai as mais elevadas. É o que a gente chama de inspiração. Você pensa e estuda, mas não creia que tudo brota do seu cérebro. É a espiritualidade que dá a inspiração. Inspirando a recordar outras vivências que você teve nesta ou naquela área. Você faz as conexões e daí saem as obras literárias e científicas. Jesus vem nesse contexto e mostra que não existe morte. Na ressurreição ele aparece em espírito para os apóstolos, várias vezes. E durante 40 dias convive como espírito, está lá narrado nos Evangelhos. O cristianismo nascente, em seus primeiros 300 anos, é baseado nas informações dos apóstolos, coisas que passavam entre as pessoas. Só depois de 60 anos da morte de Jesus é que apareceram os primeiros escritos. O evangelista João escreveu muito depois, seus escritos é que finalizam a Bíblia. Os primeiros informes são de Matheus. Em seguida, teria vindo as Cartas de Paulo. Você sabe que Paulo chegou a matar os cristãos; depois teve a visão espiritual do Cristo e se tornou o maior apóstolo de todos os tempos. Com a ajuda de quem? De Estevão, o espírito que ele “matou”, e do próprio Jesus, que o inspirou. Imagina a Carta aos Coríntios, a que diz:

Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como bronze que ressoa ou o címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou.


Uma coisa dessa, tão pura, só poderia ter partido de Cristo. No evangelho de João, o quarto e último do Novo Testamento, no começo, ele diz assim: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus”. Em algumas Bíblias, lembrando que existem 2.452 traduções da Bíblia, a Carta aos Coríntios diz: “se eu não tiver amor”; em outras: “se eu não tiver caridade”. Caridade é amor. Mas amor não é o amor sexual. Pois quando João começa o seu evangelho, ele diz: “No princípio era o Verbo”; em outras traduções: “No princípio era a Palavra”. Continuando: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez”. Nesse evangelho, o mais espiritual de todos, João coloca a origem do Cristo, que depois os Espíritos Superiores disseram como foi a Sua destinação. No final do Evangelho de João, temos o maior absurdo do mundo. Ele diz: “Se fossemos escrever tudo o que Ele fez, não caberia em todos os livros do mundo”. Por quê? Porque ele teve um apostolado de três anos, mas estava cuidando da Terra há muito mais tempo do que podemos imaginar. A Bíblia está correta, nós é que não sabemos como interpretá-la.

BH – O senhor há de convir que com tantas traduções e versões, muitas das palavras e ideias originais se deturparam. Isso não é novidade e esse parece ser um problema sem solução.

Bíblia de couro, em aramaico, provavelmente do século V
JAS – Você vê que cada evangelista escreve de um jeito. Em muitos pontos eles coincidem. O cristianismo primitivo foi até o ano 312 A.D. O imperador romano da época, Constantino, viu que os numerosos nazarenos – a seita de Jesus – podiam fazer a diferença e ajudá-lo a se manter no poder. Foi quando ele oficializou o cristianismo como religião. Foi quando acabaram as perseguições aos cristãos. Ele fez a política em cima da religião. Mais de mil anos depois, por volta de 1500, veio Martinho Lutero. A Bíblia havia sido traduzida do aramaico para o grego. São Jerônimo a traduziu para o latim. Foi aí que houve muita deturpação, pois foram traduções segundo os preceitos romanos, coisas que não estão nos originais. Lutero disse que cada povo deveria ler a Bíblia em sua língua. Lembre-se que as missas eram rezadas em latim, com o padre de costas para as pessoas. Como alguém poderia compreender a missa? Lutero e Calvino fizeram a revolução: isso aqui o povo precisa ler e entender. Do latim, traduziram para o alemão, e depois para outras línguas. Hoje, temos a Bíblia em todas as línguas. O problema é que traduziram a partir da Vulgata. O latim era o idioma mais falado, o inglês da época. É a tradução de São Jerônimo, a partir dos preceitos católicos. Os evangélicos não concordavam com uma série de coisas. Tem versão que condena até o Espiritismo. Uma contradição, pois o Espiritismo surgiu em 1857 e a Bíblia é de antes de Cristo.


BH – Quanto a Allan Kardec, ele escreveu o Livro dos Espíritos e não o Livro dos Espíritas. Há uma diferença conceitual, não é verdade?


JAS – Sim. Tudo é espiritual, tudo é espírito. O livro não é do Kardec e nem dos espíritas. É dos Espíritos. Somos todos nós condenados à angelitude. Quem é o Cristo? Agora você deve saber.

BH – Não sei.

JAS – Você está tendo outra concepção do que é o Cristo. Não é aquela em que a pessoa bate no peito e diz: “o sangue que Jesus derramou na cruz me salvou, estou salvo. Se você não fizer assim ou assado você vai para o inferno”. Repare. Esse é um resumo macabro do Cristo. O criador do Universo fez o Cristo. Tudo é filho Dele: o ar que respiramos, que esquecemos de agradecer; meu coração que está batendo e que eu esqueço de agradecer; minhas pernas que me fazem andar; meus olhos que me fazem ver. Jesus derramou o sangue e apagou os nossos pecados. Que ideia ingênua do Cristo!

BH - Ingênua?

JAS – O Cristo não é isso. Ele é o Modelo, o Guia da humanidade. Pegue sua cruz e siga. Ele deu o exemplo de pobreza e de dedicação. Ele ficou dos 12 aos 30 anos trabalhando como marceneiro, trabalhando a madeira. Não foi para lugar nenhum. Ficou com a mãe dele.

BH – Já pensou nos móveis construídos por Cristo? Uma mesa, uma cadeira, um banquinho.

JAS – As pessoas especulam. Os rosa-cruzes, por exemplo, têm uma obra que fala da vida oculta de Cristo. Dos 12 anos para a frente, Cristo foi encontrado ensinando aos doutores do templo. Ele já veio dotado, Ele já era um Espírito Perfeito. Veja: uma criancinha começa a ter aulas de piano e adquire um desenvolvimento extraordinário, capaz de compor uma peça complexa. Isso veio de onde? Foi o acaso? A natureza que deu um cérebro privilegiado para ela? Ou foram as outras existências que ela teve?

BH – Outras existências?

JAS – Outras existências. Em um bilhão e quinhentos milhões de anos, nós tivemos milhares de existências. O grande problema foi resumido por Voltaire. Em uma conferência, ele disse: “Eu não acredito no Deus que os homens fizeram. Acredito no Deus que fez os homens”. Neste exato momento eu posso estar construindo um Deus para você. Quantos deuses já apareceram? Posso estar errado, mas sei que Ele é muito mais evoluído que esse que as pessoas batem no peito, para dizer que Deus derramou seu sangue.

BH – Inegável que existe uma apropriação de todos esses símbolos.

JAS – Exatamente, o estágio evolutivo. E você se pergunta: por que isso existe, por que isso tudo? Porque isso vai contemplar o estágio evolutivo em que cada um se encontra. Não fomos gerados ao mesmo tempo. Deus cria desde sempre e continua criando. Você pergunta: pra quê? Pra que Jesus mandou Moisés? Pra que Ele mesmo veio? Pra quê Ele mandou os cientistas, os renascentistas, o Francisco de Assis, que é uma reencarnação de João Evangelista?

BH – Francisco de Assis?

JAS – Sim, o único ser humano que viveu aquilo que o Cristo falou.

BH – O voto de pobreza...


JAS – A vivência dele. Um livro escrito por um médium de Belo Horizonte, já falecido, o João Nunes Maia, intitulado “Francisco de Assis”, ele começa falando do João Evangelista. Deu para responder aquela pergunta?

BH – Mais ou menos. Existe uma diferença entre espírito, espiritualidade e religião?

JAS – Sim, você é o ateu mais espírita de todos os tempos. O espírita mais fajuto de todos.

BH – Obrigado. A gente vai levando.

JAS – Hahaha. Espiritualista é o indivíduo que acredita nos fenômenos espirituais. Tudo o que houver fora da matéria, ele acredita. O espírita não vê milagre em nada. Vai lá na lua e solta uma caneta. Ela vai demorar a cair no chão. Não é milagre, é a lei da gravidade da lua.

BH – Espera um instante. Na Bíblia fala em milagre. Os peixes, os pães, a ressureição de Lázaro....

JAS – Lázaro estava em estado de sonolência profunda. Como vemos ainda hoje casos de pessoas em estado de catalepsia. Muito comum. Às vezes quando abrem uma catacumba, para tirar os restos mortais, vê-se que o esqueleto estava revirado. A pessoa acordou na aflição, mas já estava soterrada. Depois, vem como espírito e dá a notícia.

BH – O milagre...

JAS – Não existe, o que existe são leis. A velha história. Mostre seu smartphone, seu tablet para uma pessoa que vive isolada e que nunca viu a tecnologia dos computadores. É capaz dela acreditar que você é um mágico, que isso é um milagre.


BH – Lembra daquele filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”?

JAS – Por aí, mas veja: o espiritualismo sempre existiu. Temos o espiritualismo que explora aquelas manifestações menos nobilitantes, que almeja prejudicar o outro. Tipo de coisa que não se deve perguntar a um espírito.

BH – Como assim?

JAS – Coisas pessoais, do tipo você querer saber o que foi em outra existência. Não queira saber porque você é a melhor versão de todos os tempos de suas existências. O espírito só progride. Não existe regressão. Aí você pergunta: e o cara que mata, que comete atos cruéis, ele não está regredindo? Não. O espírito dele já era nesse sentido, ele teve a oportunidade de praticar. E teve, claro, a inspiração de seres que também...

BH – O senhor fala naquela coisa cármica, segundo a qual o sujeito volta como planta, porco, cachorro...

JAS – Isso não existe, a metempsicose.

BH – Pode repetir?


JAS – Metempsicose, presente na doutrina de Sócrates, e também nos indianos. Não existe. Kardec estabeleceu que não existe passo atrás, só passo adiante. Você pode até estacionar, mas nunca regredir.

BH – Isso parece um tanto difícil de compreender, mas falando em religião, o Espiritismo é algo assim?


JAS – É uma filosofia, uma religião e uma ciência. Ela engloba todos os aspectos da existência humana. A física atômica está no Espiritismo. O livro de Chico Xavier, o qual recebeu de Emmanuel, chamado Evolução em Dois Mundos, de 1958, no capítulo 3, afirma que nós, para chegarmos a esse patamar de seres humanos, demandamos um bilhão e 500 milhões de anos. Não são quinhentos mil anos, mas 500 milhões, 1,5 bi. Quando a Terra se formou já estávamos aqui? Não, viemos de outros orbes.

BH – Temos muitas religiões no planeta. Parece que em muitas delas que não professam exatamente as diretrizes da tradição judaico-cristã-islâmica, também encontramos a prática de algum tipo de Espiritualidade. Uma tribo indígena, por exemplo.

JAS – Todos praticam.

BH – Tudo bem, mas a questão é: é possível encontrar a Espiritualidade sem ao menos conhecer ou passar distante do que conhecemos da tradição judaico-cristã-islâmica? Existe espiritualidade sem se falar em Jesus Cristo?

JAS – Existe.

BH – Então a Espiritualidade não precisa das Escrituras?

JAS – O Espírito sopra onde quer. Ele inspira a comunidade, seja indígena, silvícola ou aquela dos homens mais letrados do mundo.

BH – Mas parece que (sem as Escrituras) elas (as comunidades) vão percorrer caminhos distintos.

JAS – É dada a oportunidade a todos. Se a você fosse dada uma única existência....

BH – Única existência?

JAS – Sim, no sentido de que é a primeira vez que você nasce, seu corpo, sua mente. Daí você vai morrer. Aí acabou tudo. Que desperdício, não acha? Você tem um universo inteiro.... Vamos fazer uma analogia com o computador. Ele tem o hardware, as placas, os circuitos, e tem o software, que está no espaço inteiro. Isso é o espírito dele. Nesses programas você pode fazer upgrades. A cada existência, cada ato, cada minuto você está fazendo um upgrade do seu espírito, se você estiver cultivando o bem. Mas se você estiver praticando o mal, aí você vai estacionar.

BH – Até então entendo que a existência espiritual precisa estar ligada ao amor, à prática do bem, como meios de aperfeiçoar o espírito. Ao mesmo tempo, tornar a existência melhor.

JAS – A existência perene, verdadeira, é a espiritual. Deus criou o Universo através do Amor. Há alguns bilhões de anos, alimentávamos-nos de ervas, depois passamos comer carne. Daqui a pouco vamos diminuir a comida. Madre Teresa de Calcutá tomava uma xícara de água por dia. O alimento dela era o amor. Ela vivia de luz. No mundo espiritual o alimento não é esse.

BH – E qual é?




JAS – É o Amor. Em Nosso Lar, o primeiro livro de Chico Xavier com André Luiz, que mostra a vida no mundo espiritual, aqueles espíritos quando desencarnam... Veja, nós somos uma população de 30 bilhões de seres humanos, só aqui na Terra. Temos uns 7 bilhões encarnados e 20 bilhões em outro plano querendo encarnar; outros estão aqui como guias espirituais. Cada um tem um guia. E temos também os obsessores.

BH – Como?

JAS – Obsessores. São aqueles que têm inimizade com você, estão lhe perseguindo. Quando você pensa no mal, temos agora aqui uma multidão perto da gente, querendo ouvir nossa conversa.

BH – Ah é? Vivemos cercados de espíritos, inclusive aqueles ruins?

JAS – Exato. Agora, o que vai selecionar é o seu estado de harmonia. Você pensa no bem... Não precisa nem pensar em Deus. Não acredite em Deus, pense no bem. Muitos têm aquele pensamento de que “Deus vai me salvar, Deus vai castigar”. Que concepção é essa? Você pode dizer: eu não acredito, mas só pratica o bem, a sua salvação está garantida.

BH – Seria o meu caso?

JAS – Hahaha. Está lá no Hino ao Amor: “Ainda que eu doe todos os meus bens, até meu corpo para ser queimado, se não tiver amor eu nada serei”. Pense. Tem frase mais apropriada que essa?

BH – O senhor acredita no Deus interveniente? Isto é. Eu faço uma prece e Deus vem e intercede de alguma maneira?

JAS – Existem os espíritos que estão mais adiantados do que a gente. Do mesmo jeito que você acolhe uma pessoa que está mais abaixo, temos aqueles que estão em caminhadas maiores, sempre acolhendo, sempre agregando. Sempre fazendo o bem, estendendo a mão. Muitos recebem até patada por isso. Pois temos esses espíritos, que a melhor coisa a fazer e é se achegar a eles.


BH – Faróis em um oceano de escuridão.

JAS – Exato. São os que dão exemplos e a gente segue se encantando com as vidas deles. Daqui a pouco você também fica contagiado por eles, começa a ver que tem sentido dar a mão para o caído. É nesse movimento de dar a mão que você cresce mais ainda.

BH – Isso parece ser algo que bem define o kardecismo, a caridade.

JAS – O lema do Espiritismo, sabe qual é? Fora da caridade não há salvação. Mas entenda. Caridade não é doar coisas, mas doar o que tem dentro de você: o amor. A caridade mais sublime que você tem que fazer é a sua reforma interior. Daí você irradia tudo. Uma frase de Francisco de Assis afirma: pregue o Evangelho e se for necessário use até palavras. Isso é um exemplo transformador.

BH – Li em algum lugar que os espíritos são intergalácticos. Pode discorrer sobre essa afirmação?

JAS – Agora mesmo nesse momento de transição planetária, que começou com a formação do mundo espiritual... O Livro dos Espíritos trata da volta de Jesus à Terra. É o Consolador prometido, que está descrito no Evangelho de João: “Se me amares e seguires os meus Mandamentos, eu mandarei um Consolador que recordará o que eu falei e ficará convosco para sempre”. É o Espiritismo. No Evangelho Segundo o Espiritismo, os espíritos que ditam as mensagens e o Espírito de Verdade, o coordenador é o próprio Jesus. Jesus chamou Santo Agostinho, Platão, Sócrates, Pascal, Erasto, o apóstolo Paulo, o evangelista João. A primeira mensagem do Evangelho Segundo o Espiritismo é do evangelista João.

BH – Como é possível identificar um espírito como sendo alguém conhecido do passado?

JAS – O conteúdo, a informação passada pelo médium. Na conversa mediúnica ocorre o diálogo e a pessoa se identifica. Na época de Kardec essas informações brotavam em diversos lugares do mundo. Ele estudou comparando as mensagens, para checar se eram mesmo os espíritos que estavam se manifestando. Kardec sabia cinco idiomas.

BH – Consta que ele tentou dar embasamento científico ao que fazia.

Allan Kardec (1804-1869)
JAS – Sim, base científica. O maior astrônomo da época de Kardec, Camille Flamarion, era um médium, ele foi Galileu. Quando Kardec faleceu, em 1869, Flamarion, o astrônomo mais respeitado do mundo, disse no serviço fúnebre: Kardec era o bom senso encarnado.

BH – Todos somos médiuns. É verdade?

JAS – Todos somos. Lembre-se do computador: temos o hardware e o software. Se você premeditar a maldade, resolver fazer mal a alguém, você vai atrair consciências, através de ondas eletromagnéticas sintonizar espíritos ruins.

BH – Nossos atos seriam todos controlados por espíritos?

JAS – A única coisa que não é controlada... Aliás, de certa forma também é, é quando você resolve dar cabo à sua vida. Você tem uma programação para a sua existência. Digamos que você vai viver 80 anos. Aí, de repente, você está desgostoso, crê que a vida não tem sentido, e vai se enforca, dá um tiro no ouvido. A sua família espiritual, seus amigos espirituais – aqui você pode até ter poucos, mas lá tem um monte – não estão preparados para fazer o socorro.

BH – Como assim?


JAS – Em Missionários da Luz [livro espírita psicografado por Francisco Cândido Xavier], mostra o processo encarnatório, o trabalho dos engenheiros siderais, para fazer um código genético, que venha com as informações potenciais. Você precisa incutir uma doença cardíaca. Os engenheiros siderais fazem um código genérico à altura, baseado na herança hereditária de pai e mãe, de tal forma que, depois, você vai ter aquela doença, seja diabetes, pressão alta. Para quê? Porque você precisa passar por aquilo, para corrigir....

BH – Como assim precisa passar por aquilo?

JAS – Porque sendo um espírito milenário, você cometeu alguns erros, e precisa... Você pediu para vir, de tal forma que precisa corrigir os débitos que você tem.

BH – Uma criança que nasceu com microcefalia, por exemplo, isso não foi apenas uma má formação congênita, com “causa” definida, temos aqui uma motivação espiritual?

JAS – Vamos supor que um determinado político se locupletou, pegou verbas públicas, fez bacanais, prejudicando a população que ele tinha a obrigação de resguardar. Enfim, não usou a inteligência para praticar o bem. Ele pediu para vir em uma situação de humilhação, para poder se redimir. Isso ocorre desde muitos e muitos anos, é apenas um exemplo.

BH – Nesse sentido, toda a matéria seria regulada pelos espíritos?


JAS – Exatamente. Tudo. O apóstolo Paulo disse na Carta aos Tessalonicenses, capítulo 18, versículo 4: em tudo dai graças. Veja, só para ilustrar: uma criança foi com a mãe a uma daquelas reuniões que o Chico Xavier fazia – conforme relatado em A Sombra do Abacateiro, para ouvir reflexões sobre os evangelhos e reunir coisas, para doar aos pobres, e os necessitados também iam pegar o seu quinhão. Pois bem, essa criança era cega e sem os braços, mas dizia nomes feios, palavrões terríveis. Intimamente, muitos deviam pensar: para essa criança, só a eutanásia, pois nada vê e nem pode pegar nada. A morte seria um alívio. Chico, percebendo as vibrações, ouviu de Emmanuel, seu guia espiritual: diga a todos que essa criança veio várias vezes, matou pessoas e cometeu suicídio por três vezes; ela veio assim para não ver armas e nem poder pegar em armas, para não matar ninguém e nem a si própria. Daí a gente diz que Deus castiga. Deus é infinito amor. Infinita inteligência. Observe: temos aqui um iPhone, daqui a pouco sai o iPhone 7, o iPhone 8, assim por diante. Deus vai estar sempre inspirando as pessoas a descobrir coisas da obra Dele.

BH – Deus está por trás da Apple?

JAS – De tudo. Do cloroplasto, que é uma estrutura magnífica da planta, responsável pela fotossíntese, todo esse mecanismo é obra da Engenharia Divina. É o que libera o oxigênio, produz os frutos, a madeira, a sombra, o pasto, o remédio....

BH – Falando em termos espíritas, o que é a desobsessão?

Chico Xavier e o espírito Emmanuel
AS – Chico Xavier tinha um espírito-guia, Emmanuel, mas podia ter tido um espírito obsessor. Se pensasse no mal, canalizaria forças que o mandariam fazer coisas indecentes. Do mesmo jeito que se você pensar e fazer o bem para as pessoas, vai ter ajuda nesse sentido. Não pense que as coisas só saem de dentro da sua cabeça.

BH – Não quero crer que somos marionetes, que tem alguém manipulando as cordas por nós.

JAS – Não é isso. É no caso da obsessão. Você está em sintonia, na mesma frequência que o espírito obsessor. Ele vai te perseguir. Mas ao fazer aquela reforma íntima....

BH – Como é possível falar em espíritos bons e em espíritos ruins?

JAS – É o estágio evolutivo. As religiões em geral falam em Satanás, mas Satanás não existe. O que existem são espíritos em diferentes estágios evolutivos, aqueles que se comprazem com o mal, que querem vingança.... Por exemplo, o indivíduo rico, quando desencarna, a riqueza é um problema, pois não consegue se desvencilhar dos bens materiais que acumulou.

BH – O senhor está falando de coisas que ocorrem aqui, no plano terrestre, não é?

JAS – Sim. Sem essa condição material, você está em outro patamar.

BH – Existe condição material em outro lugar?

Carl Sagan, astrofísico (1934-1996)
JAS – Existe. Se temos bilhões de sóis, milhões de galáxias.... Carl Sagan, astrônomo moderno, mostrou matematicamente que a chance de a vida existir em outros planetas é muito grande. Ele tinha uma visão maior das questões astronômicas. E ele era um “materialista”. Entre aspas, claro.

BH – Voltamos à questão anterior: é possível vida espiritual dissociada dos Evangelhos, da concepção do Cristianismo?

JAS – Sim. Veja: se você ficar só na letra, você fica amarrado. O que está narrado em Matheus, por exemplo, são as experiências humanas, a nossa pequenez, nossas incompreensões, é a nossa história, somos nós ali que vivemos naquela época. E erramos, e tornamos a errar.

BH – Nossa sina é melhorar.

JAS – Nossa sina é a perfeição. Melhorar é só o caminho. No Evangelho de João, Jesus disse: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Não houve nenhum Espírito superior a Ele. Ou igual, aqui na Terra. Ele é o Governador da Terra. Você me diz: mas com tanta religião por aí. Eu digo: a tendência é evoluir. Os Evangelhos morreram? Pode ser, mas eu os considero. Melhor eles, estar na igreja, do que estar no boteco.

BH – De alguma maneira....

JAS – Veja você: o indivíduo está ali na droga, daí chega o pastor: você está com Santanás! O indivíduo pode tomar aquela sacudida e passa a frequentar a congregação. Isso já é um adiantamento.


BH – Pergunta difícil, como tantas feitas aqui: na hipótese de um cataclismo de tal magnitude que o planeta Terra venha a ser extinto, o que vai sobrar?

JAS – É a lei de Destruição, assim como temos a Lei de Amor, a Lei de Progresso. Mas a Lei de Destruição é para novas vidas. Do mesmo jeito que a Terra veio de uma nebulosa, aquela coisa disforme, mais poeira, daí Jesus a resfriou, condensou e a organizou, e temos então essa maravilha, o planeta Terra.

BH – Jesus fez isso?

JAS – Jesus é o Espírito Perfeito. Ele organizou tudo isso, a partir de uma explosão cósmica. Pode ter sido o Big Bang, uma supernova, um fragmento gerou a Terra. Outros fragmentos estão por aí, os planetas. Quando vier a Lei de Destruição, você será exilado para outros orbes. E lá você continua tendo os seus progressos. Não se preocupe. Essa transição está em curso. Os mundos também evoluem. Você deve concordar que no Japão temos uma sociedade organizada, diferente da nossa. Da mesma forma, a Terra está em um salto evolutivo na classificação dos mundos. Os mundos são: primitivos; de provas e expiações, como é a Terra; de regeneração; e os mundos felizes e celestes. Primitivo é abaixo da Terra. São aqueles mais elementares. A Terra, mundo de provas e expiações, foi assim considerada até 1857. A partir dali começou a Era da Transição Planetária. Agora, em 2057, quando se completam 200 anos, os justos herdarão a Terra. É o que está nas Escrituras.

BH – Quem seriam os justos?

JAS – Aqueles que estão fazendo a sua reforma, que estão alinhados com Cristo. Não é batendo no peito e dizendo que Cristo derramou seu sangue por ele. Que estão salvos porque Cristo derramou seu sangue na cruz. Não é assim. Nós estamos mudando e estão chegando seres de outros orbes, que estão renascendo aqui. Vamos ter uma nova sociedade. Aqueles espíritos pertinazes que estão aqui entre nós, esses não terão condições de permanecer. Manda um político desses que bem conhecemos morar no Japão. Parece que lá não é bem o local adequado para ele fazer coisas como faz por aqui. Entende? Temos mundos que vão nos acolher.


BH – Em 2057 é possível que a Terra dobre o número de habitantes. Quantos somos agora? Sete bilhões? O senhor não crê que precisaremos dobrar os recursos naturais disponíveis para tanta gente? Mais energia, mais água, mais terra para cultivar e colher. O cenário não parece animador.

JAS – Haverá a transmigração dos seres. Os seres que virão serão mais avançados e sua necessidade de recursos animal, mineral será menor.

BH – Digamos que as Leis da Termodinâmica afirmem que não há progresso sem a destruição do meio ambiente. Impossível gerar energia sem consumir recursos naturais. Ao que parece as necessidades serão multiplicadas.

JAS – Estamos falando de uma transformação. Precisamos lembrar que há 200 anos, um hectare de terra cultivada produzia determinada quantidade de alimentos. Hoje, a eficiência permite a esse mesmo hectare produzir muito mais. Acredite, virão novas tecnologias, novas concepções.

BH – Tudo isso graças aos novos espíritos que haverão de aportar por aqui.

JAS – Sim. Cristo sempre mandou. Isaac Newton, por exemplo, foi um ser destinado para isso. Os cientistas. É preciso acreditar nesse melhoramento. Em síntese, uma pessoa doente, que temos que nos compadecer, ajudar, de alguma forma está pagando o que ela deve.

BH – Como assim?

JAS – Ela está ressarcindo a dívida que tem. Eu, por outro lado, se estou dizendo que aquele que está doente merece a condição, se lavo as mãos diante do sofrimento alheio, vou adquirir o débito.

BH – Bem, qualquer um fica doente.

Colisão de prótons, em busca do Bóson de Higgs
JAS – Por isso que temos que cuidar bem do nosso corpo. E principalmente da nossa mente. Gostaria de complementar afirmando que não é preciso ter religião. Tudo é ciência. Temos a filosofia, e a ciência que evoluem. Se você observar, ao longo da história o pensamento evoluiu, dos atomistas gregos ao Bóson de Higgs, a partícula de Deus. Tudo isso são revelações que vão sendo soltas da espiritualidade, progressivamente. Deus soltou o amor de uma vez, como em Jesus Cristo, mas a ciência, paulatinamente, progressivamente vem avançando.

BH – Essa conversa é infinita.

JAS – Nós vamos à perfeição. Teremos muitos encontros presenciais ou em sonhos. Nós confabulamos em sonho, vamos para outras esferas.

BH – O que acontece quando a gente sonha?

JAS – Muitas coisas. Se você deixou as coisas se perturbarem, pode acreditar que os sonhos confusos, os pesadelos têm relação com as outras existências. Ou com aspirações futuras.

BH – Esse subconsciente em ação....

JAS – É o espírito. Para o espírita não existe o subconsciente, mas o espírito em movimento. Você pode perguntar: mas como o espírito vê? Na escuridão, de olhos fechados, dormindo, você não vê? O espírito vê além do espectro eletromagnético existente. Vê e ouve.

BH – O senhor é alguém conhecido reencarnado?

JAS – Não sei e não quero saber, sei que sou a melhor versão de todos os tempos.

BH – Alguns sabem, não é?

Chico Xavier em ação
JAS – Chico Xavier, por exemplo, alguns dizem que é o Allan Kardec. Não sei. Emmanuel, o espírito-guia de Chico Xavier, está reencarnado, vive no interior de São Paulo, deve estar com 16 anos. Ele vai ser presidente do Brasil em 2045.

BH – Quem viver, verá. Alguma consideração final?

JAS – Sim. A cura de todas as doenças da humanidade e todas as leis foram sintetizadas pelo Cristo: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

BH – Fico feliz que o senhor tenha doado o seu tempo e paciência nessa conversa reveladora. Muito obrigado pela atenção.


JAS – Fico muito mais. Já que você se interessa muito pela área científica, recomendo que veja A Gênese, de Allan Kardec. Ali estão contidos a origem mosaica, a origem material, a origem espiritual, a origem geológica da Terra. Tudo ditado pelos espíritos. Resumindo: tudo é ciência. Até o amor é ciência.